Acreditar no impossível; sempre!

O Acre é filho de aventuras históricas sucessivas, e quem nasce ou torna-se acreano carrega pela vida toda a dimensão do improvável, imprevisível e imponderável, que coloca a pessoa no mundo mágico de acontecimentos moldados por sentidos que as palavras não dão conta.

Este parágrafo, um tanto psico-délico, tenta sugerir o estado de espírito que move uma gente multicultural e amazônica, que não pode ser chamada de povo no singular e merece ser adjetivada pelo ambiente espetacular onde vive. Com muito orgulho faço parte dos povos da floresta.

Muitas vezes invisíveis ou subestimados pelo imenso país que pouco se conhece, nós acreanos perdemos as contas do quanto fizemos para tornar justa a crença de que viver é uma grande aventura. No nosso currículo temos muito mais que a Revolução que tornou o Acre Brasil. Uma das mais impressionantes passagens da nossa história aconteceu nas décadas de 1970 e 1980. Autênticos representantes dos povos da floresta chamaram a atenção do mundo ao inventar os “empates”, que deram sentido ao precioso e complexo conceito do socioambientalismo.

Tive a oportunidade de conviver com algumas dessas pessoas. Indescritíveis, profundas e absolutamente simples, foram herdeiras de um conhecimento ancestral que vez por outra explode em determinado espaço do tempo humano. Ali, muito jovem, compreendi o sentido de um par de coisas que não fazia parte do meu limitado mundo. É claro que muitos ensinamentos estavam (e estão) muito além da minha vã capacidade. Mas os guardo em lugares secretos da mente e da emoção, para que, quem sabe um dia, eu os decifre.

Entre essas pessoas incríveis estava o Chico Mendes. Quando ele se foi o mundo ficou cinza. No meu peito se instalou uma profunda e irreparável saudade. O Natal de 1988 foi o mais sombrio da minha vida. Pensei que a esperança tinha morrido. Nada fazia muito sentido. No ano seguinte os cientistas políticos de plantão davam como certa a eleição de Rubem Branquinho ao governo. A profecia do Pia Vila parecia se confirmar: “o Acre vai virar pasto de boi”. Triste destino…

Mas no Acre ciência e evidências sucumbem a realidades não conhecidas. Foi quando seis gatos pingados, numa apertada e quente sala do Centro dos Trabalhadores da Amazônia, resolveu desafiar a tudo e a todos. Numa insana decisão, um dos garotos do grupo virou candidato ao Governo do Acre. Assim Jorge Viana foi ao segundo turno das eleições de 1990, turbinado pelo delicioso tempero da acreanidade e a força dos povos da floresta. Foi a campanha das campanhas! Perdeu ganhando um passaporte para o futuro. E o Branquinho? Bem, este foi na balsa e nunca mais voltou. Com ele foi também a profecia do Pia.

Impossível relatar os sonhos que se concretizaram na Prefeitura de Rio Branco e no Governo do Estado como resultado de uma sadia inconsequência. Muito trabalho, companheirismo, coragem, paixão, gana de justiça e engenhosidade. Impossível qualificar a alegria de fazer parte desta história. Impossível descrever a crença num serviço público sério, justo e respeitoso.
As ações transpiravam acreanidade. Foram sonhos profundos que, sem tradução, chamávamos de florestania.

* Binho Marques é professor, ex-governador do Acre e atualmente exerce o cargo de  secre-tário de Articulação com os Sistemas de Ensino (SASE) do Ministério da Educação.

Texto publicado originalmente na Revista Acreanidade – O tempero e a força dos Povos da Floresta publicada pelo mandato do senador Jorge Viana (PT/AC)

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