A cultura de abaixar a cabeça

Parece que vivemos tanto tempo reprimidos por uma Ditadura Militar, lutando calados para nos livrar dela, que acabamos deixando de aprender com o regime. Proclamamos o desejo de ser livres e iguais uns perante aos outros, primando por respeitar direitos e deveres enquanto cidadãos de uma sociedade democrática. E até fizemos uma Constituição Federal para seguir como uma Lei Maior.  Só que às vezes a realidade força um sentido grotesco de ‘rasgar’ esta ‘Carta Magna’.

Isso mesmo, leitor, rasgar. E ainda juntar os pedaços, atear fogo e vê-los queimar junto com a desilusão de que um dia seremos verdadeiramente ‘livres’ e ‘democráticos’.

Pelo menos é esta sensação que teve a população de Epitaciolândia com a situação absurda que se desenrolou em um posto de combustível do município.

Na ocasião, um frentista teve um desentendimento com um agente da Polícia Federal. O policial teria chegado ao posto e supostamente furado à fila de pessoas que esperavam pelo mesmo serviço, exigindo abastecer a viatura na frente de todo mundo. O frentista disse que ele deveria pedir autorização na gerência do posto. Diante da resposta, o agente teria se alterado. ‘Como é que é? Não vou para fila não, eu sou da Polícia Federal’, teria dito o policial.

No fim das contas, como o mais fraco sempre ‘paga o pato’, o frentista foi detido. O agente federal chamou três viaturas (como se fosse necessário chamar tanto reforço para prender um homem) e alegou que o trabalhador o havia desacatado. Uma humilhação pública! E o pior, em pleno local de trabalho do frentista, que ainda vai responder processo na Justiça Federal.

Acredito muito no trabalho da polícia. É a instituição mais sólida na garantia da ordem e da paz na nossa sociedade. Merece todo o nosso respeito. Só que este respeito não significa que temos que nutrir em nossas veias sangue de barata. Policiais são pessoas. O dever deles não os torna maiores, nem melhores e nem mais detentores de direitos do que nenhum de nós.

Se os delegados da PF, numa atitude que beira o ‘coporativismo’, preferiram classificar toda a situação como mais um caso de ‘desacato’, alegando que os carros da PF têm prioridade para serem abastecidos (prioridade esta que, se existir, é ridícula), então que fique expresso que, aos olhos da opinião pública, esta é a retratação clássica de autoritarismo abusivo. Só queima a sólida instituição da PF, que, em diversas situações, tão bem faz ao nosso país, livrando-o de bandidos.

Isso não pode continuar. Estamos atravessando um momento difícil com a cheia do Rio Madeira. Precisamos de verdadeiros agentes da lei que acalmem os brios da nossa sociedade apavorada. E não que sejam grossos e ríspidos, com aquela mentalidade retrógrada de que podem ‘cagar em cima’ da cabeça de todo mundo. Isso não é aceitável. A conduta de policiais assim merece pelo menos investigação.

* Tiago Martinello é jornalista.
E-mail: [email protected]

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