Dá pra desconfiar

Nos últimos dias o candidato ao Governo pela oposição, Marcio Bittar (PSDB), assumiu no horário gratuito do TRE pela televisão que é ideologicamente de direita e não gosta de comunistas. Aliás, fez questão de dizer que seu estilo de administrar difere, fundamentalmente, da “esquerda do PT” , que é contra a redução da idade penal para os jovens infratores. O que deixa entender que, se eleito, colocaria mais jovens na cadeia, como se isso fosse solução para a violência que se alastra no país .

Depois de se assumir “de direita”, entretanto, o candidato achou melhor se dizer “conservador”, um vocábulo que no Dicionário Didático SM, recomendado para o Ensino Fundamental, significa: “Que ou quem conserva; que ou quem defende os valores tradicionais, combate as reformas e se opõe às mudanças bruscas”. Logo ele, que só fala em mudança, sem explicar qual delas se propõe executar de verdade!

Está em voga, hoje em dia, afirmar que não existe mais “esquerda” ou “direita” , ou “centro” – o que parece conveniente ao capitalismo e, por extensão, aos reacionários de direita, felizes com a dominação capitalista no mundo. Bittar chega até a distorcer conceitos para ampliar a importância de se assumir “conservador”: “Eu vou conservar as coisas”! Não parece, pois se alinha com aqueles que vieram para o Acre querendo desmatar e atear fogo na floresta.

A história ensina que os trabalhadores assalariados e os mais pobres da pirâmide social sempre se deram mal com os governos de direita ou de centro,  porque estes privilegiam os que já são favorecidos como classe social. No Acre, temos comparações recentes: Francisco Wanderley Dantas, governador nomeado pela ditadura de 1964, descendia de uma família de seringalistas e não se arrependeu de atrair grupos do Sul e Sudeste para comprar e desmatar antigos seringais, expulsando com violência milhares de famílias de seringueiros e ribeirinhos que ocupavam as áreas tradicionalmente.

Wanderley era de direita e chegou a ser chamado pelo jornal Varadouro de “o governador dos bois”. Seu sucessor, Geraldo Mesquita, acreano de Feijó que também foi nomeado pelo regime militar, teve formação de esquerda no passado (foi um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro no estado) e teve atitude diferente. Se confrontou com os invasores em defesa dos extrativistas, embora desconfiando da Igreja do Acre e Purus, comandada pelo progressista bispo D. Moacyr Grechi, e também da Contag, que organizou os 8 sindicatos dos trabalhadores rurais na região. Comportou-se como aliado do movimento e ajudou a dar um “basta” na revoada de jacús que ameaçava transformar o Acre num imenso pasto.

Ao deixar o governo, em 1979, Mesquita indicou o nome de Joaquim Macedo, um gerente de seringal que não era  nem esquerda, nem direita,  mas seguiu a politica de seu antecessor e colocou como homem forte no gabinete civil o líder esquerdista Elias Mansour,  professor formado no Rio de Janeiro que chegou a figurar numa lista dos generais ditadores como comunista. Macedo e Elias tiveram muito trabalho para segurar o ímpeto destruidor dos migrantes endinheirados. Líderes dos trabalhadores como Wilson Pinheiro e Chico Mendes tinham acesso fácil ao Palácio do Governo para levar suas denúncias, e uma Comissão de Alto Nível chegou a ser formada com a participação do governo para mediar os conflitos.

Depois vieram os governadores de centro Nabor Junior, Iolanda Fleming e Flaviano Melo, do PMDB; e os de direita, Edmundo Pinto (PFL) (assassinado num hotel em São Paulo) e Orleir Cameli, que empurraram o Acre para o fundo do poço. Nesse período, o então cordato Coronel PM Hildebrando Paschoal, que foi Ajudante de Ordem no governo Joaquim Macedo,  se transformou em deputado federal e chefe do crime organizado no Estado.

Só a partir de 1999 o Acre voltou a respirar ares de democracia e de respeito aos direitos humanos. Ainda tivemos a perda irreparável dos líderes seringueiros Wilson e Chico, assassinado por fazendeiros com apoio da UDR (União Democrática Ruralista), em 1980 e 1988, mas a paz na floresta voltou e a consciência de proteção ao meio ambiente cresceu.

É lamentável que pessoas bem informadas sobre essa história continuem negando os avanços que o Acre teve nestes 12 anos de governo da Frente Popular liderada pelo PT, um partido criado, fundamentalmente, pelas comunidades eclesiais da Igreja de D. Moacyr Grechi, pelos trabalhadores rurais, pelas famílias expulsas da floresta que se organizaram nas periferias urbanas e pelos intelectuais, jornalistas, militantes políticos e estudantes, entre outros.

O economista Marcio Bittar não parece ter o menor compromisso com esse movimento, tanto que anuncia, de boca cheia, que vai anistiar as multas por crimes ambientais dos pequenos e dos grandes infratores, o que significa descumprir a legislação ambiental e instituir o caos em áreas com histórico de conflitos que demandaram grandes esforços de pacificação e de ordem no território acreano. Ele não fala em meio ambiente, extrativismo, povos da floresta, acreanidade…

O ex-governador Binho Marques, ex-secretário de Educação do governo Jorge Viana e atual secretário de Articulação do Ministério da Educação tem razão ao defender a reeleição de Tião Viana (PT) afirmando que mudanças no atual projeto de desenvolvimento sustentável do Acre implicará em prejuízos incalculáveis, sobretudo para os jovens.

Binho é um quadro da esquerda do PT defenestrada por Bittar, e está acima de qualquer suspeita. Aliás, em 2006 ele disputou o governo com Marcio Bittar e o derrotou no primeiro turno.

* Elson Martins é jornalista.

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