O Acre resiste!

Mais uma vez o Acre foi às  urnas e se impôs com seu extrativismo, sua flo-restania, sua acreanidade. Deus seja louvado! Vamos continuar existindo como povos da floresta. Foi uma vitória sofrida, como a de 1998, a de 2002, a de 2006 e a de 2010. Não importa,  pois de sofrimento em sofrimento, com vitória no final, temos feito nossa história bonita e heróica. Um dia, quem sabe, os agressores vão perceber que não adianta insistir porque não vão mudar o jeito acreano de falar, amar, escolher…

Considero que as últimas eleições para o Governo  do Acre foram agressivas. Foram ameaça ao meio ambiente, à cultura e tradições dos povos da floresta. Tem sido assim de 1970 para cá, e acho que os agressores avançaram mais do que deviam. Eles mudaram nossa paisagem, nossos quintais, nossa preferência musical. Mudaram o cardápio, o modo de vestir e de confiar. Fizeram desaparecer as fogueiras, os folguedos, as conversas na calçada, os espaços livres e partilhados!

Foi quando apareceram as cercas, as botas, os cintos largos com fivelas grandes toldando a singeleza e a faceirice dos mais jovens. Ficou um hálito bovino no ar endurecendo as relações, enquanto a sensualidade natural desaparece. Diminui o recato e aumenta o desacato. Perdemos estradas, sítios, partes da  lua e do sol.

Mais que as outras, as eleições de domingo aconteceram de modo sombrio, sob o som de rasga-mortalha. Havia silêncio e muito papel no chão. Os eleitores não se entreolhavam no caminho das urnas,  caminhando com desencanto. Tinha um certo agouro no ar, como se o nosso vasto e rico mundo de florestas, montes, lagos e rios estivesse a sucumbir.

Mas o resultado foi de alívio. O Acre resistiu!

Embora faltando explicação, pra mim que votei na Marina no primeiro turno foi difícil acompanhá-la no segundo. Só depois, lendo uma entrevista que o Toinho Alves concedeu ao Altino Machado, percebi a raiz da dificuldade. O poeta e filósofo da floresta afirma:

“O tempo da política simples ficou pra trás. Esquerda e direita, democracia e ditadura, as opções eram óbvias. A polarização PT/PSDB é a continuidade desse simplismo, que está chegando ao fim. Agora tem outras forças, outros polos, uma complexidade maior. É por isso que tanta gente vive no passado. No século 21, só entra quem for inteligente”.

A explicação do amigo agravou o meu ocaso: se antes tinha dúvidas de que vivo no presente ou no passado,  agora, não sei se tenho inteligência para permanecer no século 21; ou se posso usar a que tenho para sair dele.

No século 20, penei para diferenciar a “esquerda” da “direita”, a “democracia” da “ditadura”. Depois, me empenhei em ensinar aos filhos a ser de esquerda para combater a ditadura. Minha primogênita Vassia, cujo nome retirei de um personagem do livro “As Noites Brancas”, de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévsk – escritor russo tido como fundador do existencialismo – viveu sua adolescência sob a pressão de um pai comunista, indignado com as agruras dos injustiçados.

Não consigo desmanchar minha fé, nem a minha pregação!

Para mim, o que existia antes das eleições, predominou na campanha eleitoral e restou como resultado das urnas é ainda uma briga ideológica. Com a queda do muro de Berlim e o fracasso sovié-tico no Leste Europeu, o capitalismo do século 21 abriu suas asas sobre o mundo restringindo as opções de liberdade. No Brasil, as siglas partidárias se amontoaram na simplificação esquerda e direita, representada pelo PT (à esquerda) e PSDB (à direita). A terceira via tentada por Marina Silva no Rede Sustentabilidade esbarrou na falta de democracia e excesso dos podres poderes.

Reproduzo, por oportuno, trecho do artigo do confiável jornalista Ricardo Kotscho publicado terça-feira (28) no seu blog “Balaios”:

“Nas últimas quatro eleições presidenciais, a velha mídia familiar brasileira fez o diabo, vendeu a alma e foi ao fundo do poço para derrotar o PT de Lula e Dilma.

Perdeu todas. Desta vez, perdeu também a compostura, a vergonha na cara e até o senso do ridículo. (…)  Antigamente, eles eram mais discretos, mas agora perderam a modéstia, assumiram o protagonismo. Se bem que alguns já pregam o terceiro turno e pedem abertamente o impeachment da presidente reeleita Dilma Rousseff, que derrotou o candidato deles, o tucano Aécio Neves, por 51,6% a 48,4%. Endoidaram de vez. E não é para menos: ao final do segundo mandato de Dilma, o PT terá completado 16 anos no poder central, um recorde na nossa história republicana. (…) Só teremos nova eleição presidencial daqui a quatro anos. Até lá, terão que esperar no banco de reservas do poder os herdeiros dos barões de imprensa e seus sabujos amestrados, inconformados com o resultado das urnas, se é que vão sobreviver aos novos tempos da mídia democratizada”.

Portanto, na minha simplificação ideológica continua valendo o que as urnas de domingo apontaram: os eleitores mais pobres e conscientes votaram na Dilma Rousseff (PT) para presidente do Brasil  e ganharam; os mais ricos (e os pobres sob sua influência) predominantemente votaram no Aécio Neves (PSDB) e perderam.

No Acre, os mais acreanos votaram para que Tião Viana (PT) continue no governo. E assim será.

* Elson Martins  é jornalista.

Assuntos desta notícia