O respeito morreu

Francisco sempre foi um homem trabalhador e cheio de ideologias. Entrou tarde na escola, devido a uma infância pobre. Mas compensou o atraso na adolescência.

Casou-se cedo e teve filhos. Construiu uma família feliz, pois sempre ensinou em casa o valor do respeito e da dignidade.

Naquele último domingo de outubro acordou cedo e tomou um café reforçado. Ele se despediu dos filhos e entrou no carro com a esposa. O casal seguiu junto para a seção eleitoral exercer a cidadania. No caminho, ninguém falou nada. Cada um havia escolhido o seu candidato, mas isso nunca foi motivo de discórdia entre eles. Pelo contrário. Aumentava o assunto e os permitia conversar de forma crítica durante horas e horas sobre os desafios que o vencedor nas urnas enfrentaria ao assumir o governo do país.

Os dois votaram em quem julgaram melhor para ficar na Presidência, após análises das propostas de governo. Na verdade, nenhum dos candidatos defendia ao pé da letra o que a nação realmente precisava. Alguns planos eram vagos. Mas o eleitor não é boneco para assistir a quatro anos passarem sem fazer nada. Nesse período, o povo pode fazer diferente e cobrar.

De repente, após alguma espera, o noticiário da televisão anunciou o vencedor das eleições 2014. Francisco e a esposa trocaram olhares e depois se abraçaram. Cumprimentaram um ao outro. O respeito prevaleceu, mas não por muito tempo.

Francisco, que nasceu no Nordeste, nunca foi de fazer separações regionais. Para ele, isso deveria ficar na Geografia. Ser brasileiro era a sua maior definição. Amava o país, apesar dos defeitos.
Após o anúncio dos resultados, Francisco e outros milhões de nordestinos tornaram-se vítimas do preconceito e da intolerância de justamente quem se diz a favor da democracia. O motivo? A região havia dado o maior número de votos à candidata reeleita.

“Povo burro. Merece morrer na miséria”, “Que o vírus Ebola olhe com carinho para o Nordeste”, “A parte lixo do país”, “Depois dessa vou embora daqui”, vomitavam os derrotados.

Em um país tão plural, atitudes assim são vergonhosas, pensou Francisco, que teve de explicar ao filho mais novo porque estava sofrendo tanto bullying por ser nordestino nas redes sociais.

“Meu filho, as pessoas são falhas. As mesmas que defendem o país com unhas e dentes são as primeiras a prometerem deixá-lo quando o seu candidato político perde. Você acha que um bom capitão abandona o navio em alto mar? Certamente não. Eles não reconhecem que a maioria é quem decide. Infelizmente não podemos ter tudo, mas podemos cobrar e vigiar os políticos para que façam o seu trabalho. Somos nós os fiscalizadores. No entanto, o ódio e a insensatez acabam colocando um cidadão contra o outro. Os políticos certamente riem de tudo isso e só quem sai perdendo somos nós”, disse ao menino sem revelar em quem votara.

 * Brenna Amâncio é jornalista.
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