A balada do amor em tempos caóticos

Vi-a presa em uma redoma de  vidro do tamanho da lâmpada que sufocava o gênio. Ele a deixara lá. Tranquila, ficara ali desde um ontem de um tempo, há muito vivido. Lia poesias de Hesíodo e de Homero, recostada à raiz de um olmo. Era ainda mais lânguida e pálida e bela em suas roupas brancas e finas. O cabelo, encaracolado e grande e louro claro, mantinha-o mais ou menos preso a um elástico que servia de suporte a uma grande rosa cor de rosa. Belíssimas, as duas, além da árvore.

Séculos depois da pequena saga quase traduzida em língua grega, eu desposei uma ninfeta ou uma pequena fada que, agora em língua camoniana, nos meus sonhos, de tão leve e fina e diáfana e tênue enquanto mulher, dormia à luz da lua sobre uma flor de lótus em um canteiro ou em uma pérgula que minha mãe fez construir na vivenda da rua das castanholas. E eu a vi ali, na mesma posição, por décadas, sem o alento do amor, sem o pão que alimenta a alma, sem o mero afeto de uma mão a lhe passar por sobre o cabelo negro e liso como o chão úmido e escorregadio da sua história de anja. Mas, mesmo ali, sob seios túrgidos de adolescente, ela guardava um coração puro e casto e singelo e cheio de amor para dar  –  de mão beijada  –  a um marido que a não deixava sair da posição acima narrada, porque era ele um pintor que se mantinha com aquarela e pincéis à mão, sempre pronto a retratar as dores do parto do mundo através da sua arte de reinventar a vida real.

Agora, então, depois de sonhos tão nítidos quanto a chuva amazônica, fui mais uma vez, à cata dos livros já depois das quarenta e muitas voltas do meu ponteiro de maçaranduba. Após o divórcio conturbado que foi largar mão dos clássicos e da filosofia clássica, e da moderna também, li a poética de Píndaro a Nabokov e a Calderón de La Barca, ouvi a música de Schubert a Strauss e a Schönberg, fiz passeios pela prosa de Machado a Balzac a Zafón a Saramago e a Gabriel Garcia Marques… E por aí se vão séculos a fio de seda poliuretana.

Em uma viagem sonâmbula que fiz à Rússia dos czares, lembro quando o Lev Tolstoi falou algo parecido com uma assertiva segundo a qual a mulher é formada de uma substância tal que, por mais que a estudemos, sempre nela encontraremos alguma coisa totalmente nova. Da mesma forma que elas podem acostumar-se ao amor em doses maciças e ao carinho e à atenção e aos cuidados, elas se habituam sempre às situações mais extremas, tudo em nome do bem querer que até a maltrata e a destrói paulatinamente, sem pressa, mas com a pertinácia de um tambor de guerra.

Assim também era a minha mãe. Tombou como uma heroína, com bem mais de oitenta voltas. Por anos a fio, ela permaneceu em casa cuidando das crias, eu e os meus irmãos. Como uma fadinha encantada, suportou do fauno mulherengo tudo sem pestanejar. Tudo, tudo, em nome da honra dela e da segurança da família que lhe rendeu frutos da mais alta linhagem, tipo exportação.

Acabaram-se a fada e a balada e o sonho. Agora, o papo fica reto.

Em verdade vos digo, minhas senhoras! O homem ajuizado que sou nunca permitirá que notícias detratoras, sobre as mulheres, proliferem por aí afora, porque, no mínimo, a minha mãe deve ser tida pelos filhos como um espírito carregado de tantas virtudes quantas a mim jamais será dada a possibilidade de mensurar com exatidão mínima. É minha a mãe.

Mas há sempre uma peripécia a mais a tratar sobre a aventura da alma feminina sobre a terra dos homens de das mulheres.

Observemos que há muitas delas, por exemplo, impregnadas de sensibilidade, como a que acima é louvada em prosa poética tão aguada e tão nua. Há outras, todavia, que nem tanto. Mesmo assim, apesar desta pequena falha de Deus, cá o poeta insano se acha no direito estúpido e líquido e certo de admitir que uma mulher insensível é aquela que ainda não encontrou aquele a quem deve amar. A competência masculina não é brinde distribuído a todos e muito menos aos meros reprodutores da raça tosca e mal desenhada pela natureza sábia. (Já pensou se todos os homens fossem tão primorosos quanto eu? Porra!)

A filosofia, velha amante depois da guerra, então, volta hoje a me fazer companhia no leito em chamas. A modernidade me diz que uma tal crise de conceitos e paradigmas assola o nosso vetusto tempo de tirania. Há uma certa inversão das bolas, ou dos valores, se me refiro às mulheres e aos homens da minha era de desvario e muita doidice.

E foi aí que a poetisa do feminismo fez pergunta a ela mesma:

– Por que é tão urgente e necessário para as mulheres o casamento?

De pronto, logo depois da indagação que me fez a senhora De Beauvoir, fui à cata das impressões de algumas das mulheres mais eminentes da minha aldeia.

Então, em resumo, uma delas foi surpreendente ao observar que as mulheres têm, sim, prazo de validade. (Para os machistas, também o casamento carrega consigo tal rótulo). A partir daí, foi que cheguei à conclusão supimpa segundo a qual alguns devem ter lá as suas razões ao afirmar ser agora inadiável a edição de uma cartilha observando os princípios básicos sobre como bem tratar este espécime feminino da raça humana. Olha!

A Alexia me falou que, realmente, mulher poderia vir da fábrica com um certo manual de instruções, posto que as famílias as criam cheias de mimos e beicinhos, e sem nenhuma diplomacia. Falam alto e têm educação tenra, notadamente, parte considerável das filhas dos menos aquinhoados, com alguma ressalva minha.

Uma moça madura me disse que o casamento é uma experiência boa, que deve ser vivida por todos; depois, quando acabar, a gente vê o que pode ser feito. Uma juvenil, quase infanto, justifica que a pressa ocorre porque as mulheres têm medo de que o tempo logo passe e elas fiquem feias de forma a serem preteridas pelos possíveis parceiros no casamento que conduz poucas delas a alguma coisa mais substancial. Outra bela jovenzinha disse que algumas mulheres buscam apenas depender de maridos mais abastados. Uma outra disse que o desejo da maternidade as faz partir para essa busca incessante pelo casamento.

Depois, o Pancrácio, meu colega de copo e de cruz, servidor exemplar da Academia, concluiu que o problema maior é que elas são comprometidas demais. Nelas, nada mais significativo há que a responsabilidade, a família bem constituída, os filhos em bom colégio e um marido tolerante às mesmices de uma tepêeme que nunca muda o diapasão, a rotina… Assim mesmo!

Parti, enfim, para o comentário da Estela Maciel  –  a filósofa do amor em tempos caóticos  –  de apenas vinte e dois anos, segundo quem a mulher por ela descrita não é aquela figura tirânica, dominadora, arrogante e dona da verdade que todos detestam. Ela é amável, porém decidida. Reconhece os próprios pontos fortes e fracos e gosta da própria companhia.

A senhora De Beauvoir, poetisa feminista, enfim, nos deixa algo tão lúcido quanto a mocinha que acaba de colocar a sua opinião. É tão somente através do exercício de uma profissão digna e bem paga que a mulher conseguirá diminuir a distância que ainda a separa do homem. Somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta.

E olhe que hoje não é o dia da mulher… Mas eis que, conforme o Fernando Pessoa, tudo sempre vale a pena quando a alma não é pequena.

*Autor de Janelas do tempo, livro de crônicas; e O inverno dos anjos do sol poente, romance de viagem cujo foco maior é o Acre dos anos 40 e 50. Cronista do jornal A Gazeta, de Rio Branco, Acre: www.claudioxapuri.blog.uol.com.br

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