Alegria Sem Limite

Houve um tempo em que Carnaval em Rio Branco era sinônimo de desfile de Blocos e Escolas de Samba. Tempo glorioso em que as torcidas vibravam com a apresentação de suas escolas do coração no palco iluminado da Avenida Getúlio Vargas.

Entretanto, o tempo passou e as escolas de samba e os blocos viveram um lento processo de decadência, por motivos diversos que não vou detalhar aqui, que os levou a desaparecer quase completamente. Só uns poucos blocos de sujo e alguns teimosos sambistas mantiveram acesa essa chama carnavalesca.

No tempo em que trabalhei diretamente no carnaval através da Fundação Garibaldi Brasil, nunca deixei de admirar a tenacidade com que os representantes dos blocos remanescentes ou dos novos que estavam surgindo defendiam a necessidade de continuarmos insistindo em dar espaço e apoiar esse tipo de manifestação carnavalesca. E assim foi.

Mas, no ano passado, meu grande parceiro Euphônico, Brunno Damasceno me convidou pra algo que nunca tinha imaginado em minha vida: participar da composição do samba-enredo do Bloco Sem Limite que estava surgindo ali no bairro José Augusto. Então tá, vamos lá ver como é esse negócio de compor samba. Além de mim o Brunno chamou também Eudmar Bastos e Samuel Luz (mais conhecido como Manin) e na mesa de um bar nasceu o samba sobre a vida e a obra de Jorge Cardoso, enredo escolhido pela turma do Sem Limite.

Foi muito legal, então, acompanhar o desfile do bloco e ter nosso samba bem pontuado pelos jurados. O que nos levou a repetir a fórmula esse ano. Os mesmos parceiros: Brunno, Ed, Manin e eu, compondo o samba-enredo “Catraia, Catraieiro – Na beira desse rio tem samba”.

Infelizmente, por motivos alheios a minha vontade, não pude ir pra avenida acompanhar o bloco. Mas, pelo que fiquei sabendo, tinha muita gente pra assistir, comprovando que o gosto por essa tradição cultural ainda se mantém em Rio Branco. Então pedi pro Brunno descrever aqui pra gente como foi a apresentação do Sem Limite. E assim foi…

“O bloco Sem Limite atravessou o Rio Acre para ir ao desfile (que este ano foi no Segundo Distrito) numa Catraia cheia de felicidade e voltou pro lado de cá com o título do carnaval.

Foi emocionante ver uma comunidade brincando carnaval e falando coisas do nosso Acre. O desfile levantou o público, o samba-enredo estava na boca do povo, a bateria pulsava junto com os corações dos foliões que acompanhavam a passagem do bloco.

A comunidade esse ano veio com um desfile muito mais organizado que no ano passado, quando ficou com o segundo lugar. A comissão de frente com uma coreografia e fantasias lindas, no meio do desfile se transformava em um rio que era navegado pelos componentes. A bateria com uma pulsação forte, cadenciada, respeitando seus limites e explorando o que tem de melhor: o empenho e a alegria dos ritmistas. O samba-enredo pegou, o bloco cantava, pulava e fazia o balançado do rio na hora do: ‘Olha lá vem o balseiro, vai com calma Catraieiro’. No meio do desfile lá vem uma catraia, com crianças em cima, um catraieiro e uma linda mulata em cima, catraia de carnaval. Os foliões que eram puxados pelo bloco com uma animação contagiante. Isso tudo ganhou o público das arquibancadas e os jurados.

Já dava pra notar nos bastidores que esse ano o clima era diferente, muita preocupação dos diretores do bloco com a organização de tudo. E uma felicidade estampada no rosto. Alegria de quem tinha cumprido o seu dever e agora era só se divertir.

No final veio o título de campeão. O primeiro campeonato de um bloco que só tem dois desfiles em sua história. No fundo, no fundo, pode até parecer piegas, mas nem importa tanto o título. O que realmente importa é o carnaval e sua alegria”. (Brunno Damasceno)

Assim, não posso deixar de agradecer à família do Sem Limite pela confiança que depositou em nós, compositores, e parabenizá-los pela conquista. Até porque o título de campeão do carnaval rio-branquense de 2015 não veio de graça, foi fruto de muito trabalho, empenho e, principalmente, o que o Brunno já disse ai em cima, muita, muita, muita alegria!

* Marcos Vinicius Neves é historiador

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