Asas partidas (2ª parte)

2015 – Hoje o Prefeito Marcus  Alexandre está entregando a revitalização do antigo Aeroporto Salgado Filho, atual Centro Cultural Lydia Hammes. Mais um capitulo nessa longa história que começamos a contar, aqui nessa coluna há umas semanas atrás, e hoje concluímos.

2001 – A torre queimou! Agora o Aeroporto Velho se acabou de vez! Foi assim que recebi a notícia que me levou de volta ao velho prédio onde um dia trabalhei e fui feliz.
Agora que olho para a torre do velho aeroporto sem escadas, só escombros e cinzas, é que me dou conta de que ninguém pode mais subir até  lá e voar para outros tempos mais dignos. Aqui não sobrou nenhuma história, só fragmentos que talvez fosse melhor esquecer.

1937 – Durante muito tempo ainda o Acre continuaria recebendo aqueles estranhos hidroaviões. Mas logo o novo governador, Epaminondas Martins, substituto do folclórico Martiniano Prado, inaugurou, com direito a banquete e orquestra, o “nosso Primeiro Campo de Aviação”, agora denominado “Santos Dumont”, onde passaram a pousar os aviões da Panair, da Cruzeiro e do Correio Aéreo Nacional (CAN).

Era o início da história da aviação no Acre. Em pouco tempo João Donato se tornaria o primeiro piloto acreano e a criação do Aero Club demonstraria que os aviões tinham chegado para ficar nos céus da Amazônia Ocidental.

1950 – O Major Guiomard dos Santos promoveu uma verdadeira revolução no Acre. Além das inúmeras lanchas, caminhões, tratores, máquinas industriais e agrícolas que fez chegar ao Território, Guiomard ainda comprou diversos aviões para o governo. Por isso, coube à Guarda Territorial, sob o comando de Fontenele de Castro, construir aeroportos em todas as principais cidades acreanas.

Mas, a menina dos olhos do casal Guiomard-Lydia era a Estação de Passageiros de Rio Branco, capital do Território Federal. O Aeroporto Salgado Filho foi inaugurado em 1950 com todos os avanços que Guiomard havia conseguido criar em seu governo. Cada ambiente da Estação de Passageiros recebeu um diferente ladrinho hidráulico entre os mais bonitos que eram feitos na Cerâmica Oficial. O acesso à estação se fazia pelo rio, já que o governador vinha do Palácio Rio Branco até o Aeroporto em modernas lanchas, mais confortáveis que a poeirenta/lamacenta estrada que levava do centro da cidade até a Fazenda Sobral.

Os aviões da frota do Governo traziam de tudo, desde matrizes bovinas e caprinas, suínos, galináceos de raça, tudo que pudesse melhorar a produção acreana. Ao partir levavam a borracha tratada pelo novo e revolucionário Processo Arantes. O Baile das Flores, que teve lugar no elegante salão da Estação de Passageiros Salgado Filho, e aparece no filme-documentário que Guiomard mandou fazer, mostrava que todos os sonhos pareciam possíveis naqueles dias.

1996 – Parece que foi ontem a inauguração do Centro Cultural Lydia Hammes Guiomard dos Santos no prédio do Aeroporto Velho recém-reformado pelo prefeito Jorge Viana. Finalmente o Setor de Patrimônio Histórico do município de Rio Branco passaria a ter um prédio próprio para trabalhar. Não dá nem pra descrever a animação que tomou conta de nós. Também! Não era à toa! Graças a um projeto da Fundação Garibaldi Brasil financiado pelo Ministério da Cultura conseguimos aparelhar e montar um razoável centro de pesquisas acerca da história acreana.

Com isso passou a funcionar no Centro Cultural uma boa biblioteca com centenas de livros de história, Amazônia, museologia, arquivologia, além de ficção, quadrinhos e livros didáticos pra moçada; um mini-auditório com o equipamento de tv e vídeo: um equipamento de informática que nos libertou do nosso velho XT com monitor de fósforo verde; a maior exposição que já fizemos em terras acreanas sobre a história da aviação e do Aeroporto Salgado Filho, disposta em painéis especialmente desenhados para acompanhar a arquitetura do velho e imponente prédio; o núcleo inicial do arquivo histórico do município com documentos salvos da destruição no arquivo geral da prefeitura; e, principalmente, o xodó do Setor de Patrimônio Histórico, uma leitora/copiadora de microfilmes que nos possibilitou adquirir uma coleção de jornais microfilmados igual às que só existem na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e no CDIH da UFAC e que é formada por jornais de todos os municípios acreanos no período entre 1904 e 1986.

Quantas pesquisas e histórias foram possíveis a partir de então…

1974/78 – Durante vinte anos, o Aeroporto Salgado Filho foi o porto de entrada e de saída de milhares de acreanos. Ligação com o mundo, ponto de encontro da sociedade. Dizem que também lugar das aventuras da mocidade nos fins de semana. Mas os aviões cada vez mais modernos já não cabiam na apertada pista. Por isso, no Governo Wanderley Dantas foi construído o Aeroporto Presidente Médici, que em 1974 recebeu o primeiro Boeing da Vasp. Era a aposentadoria da Estação de Passageiros Salgado Filho, que gradativamente foi sendo abandonada, passando a ser conhecida como Aeroporto Velho. Até que o governador Geraldo Mesquita, em 1978, doou o prédio para o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas Amazônica) para fomentar a pesquisa científica no local. Foi aí que começaram a ser plantadas em volta do imponente prédio mudas de cupuaçu, cacau, fruta-pão, bacuri, mangas, e outras maravilhas da natureza que até hoje enchem a boca dos meninos das redondezas, com cores, sabores e doces.

* Marcos Vinicius Neves  é historiador

Assuntos desta notícia