Inocente útil

Incrível que, passados apenas três meses da reeleição e pouco mais de um mês da posse da presidente Dilma, se veja no Congresso Nacional tal enredo golpista da oposição. Na pressa, surge o senador Cristovam Buarque (PDT/DF) justificando o impeachment: “Está na boca do povo”.

O senador Cristovam surgiu na política por obra do PT, que em 1994 foi buscá-lo na Universidade de Brasília para ser governador do Distrito Federal. Mas ele patinou e a oposição a quem hoje se junta tentou derrubá-lo do Governo com acusações de corrupção. Ficou famoso no episódio em que um manifestante do PMDB quebrou um ovo na sua careca, com uma multidão ensaiada gritando: “Fora Cristovo, fora Cristovo!!!”.

Mas o PT defendeu o governador Cristovam e o lançou à reeleição. Ele perdeu para o famigerado Joaquim Roriz,  segundo certo consenso entre jornalistas e marqueteiros, porque foi arrogante e humilhou seu fraco opositor em um debate de televisão.

O PT lhe deu nova chance e o elegeu senador em 2002. E mais: o presidente Lula o nomeou ministro da Educação. Mas assim como não foi bom governador, o professor Cristovam foi um péssimo ministro.

Vaidoso, Cristovam tomou sua demissão do Ministério como uma ofensa pessoal. Saiu do PT e desde então tenta atrapalhar a vida do seu primeiro partido e dos ex-companheiros.

Não é que eu esteja de birra com o nobre senador. Minha preocupação é ver o professor Cristovam Buarque fazer o papel de inocente útil.

Decano dos colunistas da Folha de São Paulo, Carlos Heitor Cony teve a dignidade de reconhecer que a presidente Dilma nada tem a ver com a corrupção na Petrobras. A Folha é que não vai admitir que tucanos e barões enxergam na crise a oportunidade de privatizar a Petrobras.

Por trás da tese do impeachment, se movimenta a elite que governou 500 anos e não aceita 16 anos de governo popular com Lula e Dilma. Querem tirar a presidente, se não der, pelo menos impedir uma eventual volta de Lula.

Nessas horas, o orgulho cega até inteligências como o professor Cristovam Buarque. E a presunção, assim como a ingratidão, pode transformar até os mais preparados em inocentes úteis.

O impeachment não está na boca do povo, mas no coração de quem faz a política com ódio ou ressentimento.

Isto é um perigo. E não pode contaminar as novas gerações.

* Gilberto Braga de Mello é jornalista e publicitário.
E-mail: [email protected]

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