Eles também amam

Uma das minhas primeiras lembranças na vida é de minhas mãos acariciando os pelos de um gato vira-lata que tínhamos adotado lá em casa. Lembro do toque macio e da expressão de satisfação do bichano.

Dei muita dor de cabeça para os meus pais quando pequena. Eles me ensinaram a não machucar nenhum tipo de ser vivo, incluindo plantinhas. O resultado disso me tornou uma pessoa sensível à causa animal.

Lembro de tentar salvar vários passarinhos que caiam de época em época de uma árvore enorme do nosso quintal. Eu me aventurava a devolvê-los para a mamãe ave e enfrentava o meu terrível medo de altura.

Ainda criança, eu tentava salvar as formigas durante as tempestades. Saia na chuva tirando todas possíveis das poças de água. Cheguei a chorar quando fracassava no ofício. Isso até arrancava risos dos meus pais.

Arrombei várias vezes o meu cofrinho para comprar comida a cachorros de rua. E trazia todos os gatos abandonados para dentro de casa. A mamãe, certamente, não gostava disso. Meu pai fazia o papel de advogado, às vezes. Tentava convencê-la a me deixar ficar com os felinos.

Quando penso na minha infância, lembro dessas coisas. De ser uma maria-mole quando o assunto se referia aos inocentes e indefesos.

Talvez, por isso, hoje, incomode-me tanto ver que para muitos, os animais são apenas pragas que sujam e passam doenças. Eu discordo disso. Já vi casos de cavalos, gatos e cachorros que ajudam em tratamentos de crianças doentes.

Os benefícios de receber o carinho de um bichinho são inúmeros. Não caberia escrevê-los aqui.

Semana passada, um caso me tirou do sério. Não tive como ignorar. Um cachorro havia sido deixado abandonado dentro de um quintal por semanas. O dono simplesmente foi embora e o deixou por mais de um mês nessa situação. Sem água ou ração, descobri que o pobre cão sobrevivia com as goiabas que caiam de uma árvore.

Ao ficar sabendo disso, fui tomada por uma revolta tremenda. Como pode alguém ser tão cruel assim? Qual teria sido o crime do coitado cachorrinho? Dar carinho e proteção ao quintal? Ser fiel e amigo?

O crime me sensibilizou e logo consegui um novo dono para o cachorro, que estava em estado de desnutrição avançado. O tal dono voltou depois e disse pensar que o bicho já havia morrido. Ele não fez questão de ficar com o cão.

Meu sonho e de muitos amigos que apóiam a causa é que os nossos representantes políticos criem leis mais severas para punir gente covarde que pratica crueldades contra os animais. Pessoas assim são infelizes e não merecem a felicidade de ter um amigo companheiro peludo.

* Brenna Amâncio é jornalista.
E-mail: [email protected]

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