Aqui o rio (e mais) comanda a vida

Alagações sempre fizeram parte da vida acreana, por vários fatores e nem sempre de forma negativa, aliás. Primeiro porque esse é o regime natural de todos os rios acreanos. Depois por que as mais antigas e principais cidades acreanas foram construídas exatamente nas margens dos rios uma vez que dependiam destes para o transporte, o comércio e a vida em geral. Tanto assim que Leandro Tocantins intitulou um de seus livros sobre o Acre como “O rio comanda a vida”.

Na verdade, o Acre ficava isolado exatamente na época da seca e só voltava a ter contato com o restante do Brasil quando os rios voltavam a encher. A cheia sempre foi, portanto, sinônimo de fartura, de baixa dos preços das mercadorias, de chegada de gente. Isso se alterou um pouco com a instalação do transporte aéreo regular a partir do fim da década de 30. Mas, não tinha efeito para o custo da vida em geral, já que quase tudo continuava chegando através dos vapores, chatas e batelões. Uma situação que só seria realmente modificada a partir de meados da década de 90 com o asfaltamento definitivo da BR-364 no trecho que liga o Acre à Rondônia. Ou seja, só muito recentemente.

De lá pra cá as coisas mudaram muito. As cidades começaram a ficar de costas pros rios e de frente pro asfalto. Que o diga o São Sebastião que fica na praça da beira do rio em Xapuri que foi virado de costas pro rio literalmente! E as pessoas em geral só voltam a lembrar como são belos e fortes os rios daqui quando estes enchem. Porque sim! O Rio Acre cheio é um espetáculo. Mesmo que as consequências de toda essa beleza sejam de tristeza pra tanta gente.

Por outro lado, é impossível não reconhecer que essa histórica alagação do Rio Acre é uma tragédia de grandes proporções para milhares e milhares de famílias acreanas que estão tendo pequenas ou grandes perdas em bens materiais e até em vidas humanas. Mas, o que se tem visto de união, boa vontade e solidariedade nos últimos dias é de uma beleza, compromisso e singularidade que não se costuma encontrar em outras partes do país.

Desde a semana passada, quando o Rio Acre começou a transbordar, toda a equipe do gabinete do senador Jorge Viana está empenhada, junto com muitos outros voluntários das secretarias municipais e estaduais e da sociedade em geral, em auxiliar aos desabrigados no Parque de Exposições. E o que tenho visto nesses dias por lá é de cortar o coração e ao mesmo tempo encher de orgulho.

É inegável que nos últimos anos o Governo do Estado e a Prefeitura de Rio Branco desenvolveram diversos procedimentos para atender aos desabrigados da alagação. No Parque de Exposições estão funcionando diversos serviços básicos como saúde, assistência social e segurança. Mas, as equipes envolvidas no trabalho, deste e de outros abrigos espalhados pela cidade, também se esforçam para atender outras necessidades, tais como: alimentação de boa qualidade, fiscalizada por nutricionistas; serviço de rádio por alto-falantes para avisos necessários, música e informações gerais; diversos locais com recreação infantil que incluem filmes, brincadeiras de roda e leitura de livros; corte de cabelo; agua mineral gelada por todo o parque para o consumo das famílias; lavanderia organizada a disposição dos desabrigados e banheiros constantemente higienizados; entre muitas outras ações ali disponibilizadas.

É claro que nada disso resolve a angustia e a dor que estão passando as milhares de pessoas desabrigadas. Mas a boa organização dos abrigos e, especialmente, a boa vontade dos voluntários, certamente, alivia bastante o sofrimento dessas famílias numa hora tão difícil.

Nestes dias tenho tido a oportunidade de conviver e trabalhar junto com pessoas da Emurb, da Semsur, do Senac, do Centro de Multimeios, e de muitos outros lugares e instituições, muitas das quais não conhecia, com um forte espírito de boa vontade e de solidariedade. O que me fez ver, mais uma vez, a beleza que existe para além dessa tragédia histórica. Me lembrei, então, de algo que o Toinho Alves me contou certa vez a respeito da vida no Acre. Ele me disse: “Rapaz! A vida na nossa floresta era e é tão difícil, tão dura, tão cheia de percalços, que seria impossível viver só. Uma pessoa que sofre um acidente ou fica doente só consegue sair da floresta e ir pra cidade se for ajudada, carregada mesmo muitas vezes, por seus vizinhos. E isso já faz parte de nossa cultura. É por isso que somos assim, tão dispostos a ajudar o outro”.

Ou seja, aqui não é só o rio que comanda a vida, mas a solidariedade também. Felizmente!

* Marcos Vinicius Neves  é historiador

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