Hoje como ontem

Essa semana o Acre foi pauta  de um importante programa jornalístico de uma das principais emissoras do país. E a ênfase do programa foi na força desse povo que secularmente resiste aos desastres naturais sem perder a coragem e a alegria. Nem podia ser diferente, afinal, os acreanos tem PhD em alagações como se pode conferir nas matérias antigas que transcrevemos abaixo e que são uma pequena amostra do que é possível encontrar nos antigos jornais acreanos.

A ENCHENTE DE 1920 – O RIGOR DO INVERNO – O RIO ACRE TRANSBORDA – A ALAGAÇÃO NO BAIRRO COMMERCIAL – A RUA PORTUGAL ALARMADA – ENCHE OU VASA?
Desde domingo último, o prenuncio de grande enchente, alarmando os agricultores e os que habitavam as vagias do Acre, vem interessando a população de Rio Branco. Rádios de Xapury como que tocavam a rebate os desprevinidos. Com efeito, dia a dia, foi subindo o rio, gaugando o barranco do bairro commercial, invadindo as terras baixas, represando os igapós, tomando os quintais da rua Portugal e Cunha Mattos, e, por ultimo, ante-hontem, obrigando a fechar a casa comercial Raphael Fernandes e transpondo o limiar da porta das habitações d’ aquela rua, cujo trânsito passou ser feito em canoas.

Em vários pontos de Rio Branco, o rio sangrou: defronte do hotel Madrid e nas imediações da casa Ingleza e pharmacia Acreana. A municipalidade improvisou pontes sobre caixões para normalizações do trânsito.

Na rua Abunã casas comerciais treparam as suas mercadorias e na rua Portugal os moradores fizeram os mesmo com os moveis e utensí-lios de suas casas. Invariavelmente era a pergunta de transeunte a transeunte: – Enche ou vaza ?

E boatos de novos repiquetes de metros d’ água, circulavam assustando os que habitavam o Quinze, Canudos, as ruas Portugal, Cunha Mattos, 6 de Agosto e Plácido de Castro. Seria a reprodução da calamidade de 18?

O aspecto da cidade era bizarro: o rio era um lago só, atravancado de balseiro, tornando longa e penosa a travessia de um bairro para o outro. O transito de Rio Branco e Penápolis, era servida além da canôa habitual de passageiro, por um motor e três canôas particulares. O Chico Ligeiro e o expresso prestavam bons serviços.

Canôas passavam conduzindo trastes de foragidos da allagação. Ubás, esguias como gandolas, de varejão à popa, davam à rua Portugal o aspecto mal comparado – já se vê – um canal de Veneza.

Se continuar a encher, a fábrica “Rio Branco”, amanhã talvez, não fornecerá pão dos innumeros freguezes. Os seus fornos serão invadidos pela água já bem perto.

À hora que escrevemos estas notas temos palmo e meio d’ água no nosso escriptorio. Várias famílias mudaram se da Rua Portugal, estando todas casas innundadas. Hontem á noite, faltavam mais de 50 centímetros para a marca da excepcional allagação de 1918.

Jornal: O FUTURO – 15 de fevereiro de 1920 – Rio Branco – Acre – Pág. 2

A INUNDAÇÃO
O Acre, que há muitos dias vinha enchendo vertiginosamente, transbordou afinal nos dias 16 a 20 submergindo todo o bairro Empreza, causando incalculáveis prejuízos materiais e de vida, quer na cidade, quer no seio da população ribeirinha.

Esta enchente ultrapassou a do ano passado, deixando no bairro Empreza, fora d’água apenas uma restinga de terra entre a Praça Arthur Bernardes e o Pavilhão Rio Branco, a parte mais alta do trecho que medeia entre a Pensão Portugueza e a esquina do antigo hotel Cicarelli.

O sr. João Macedo, O dr. Paula Ribeiro, a modista d. Lalá Lagos e a viúva do coronel João Donato de Oliveira tiveram suas habitações invadidas pelas águas enfurecidas.

O predio da casa N. Maia e Comp., onde funciona o Banco do Acre, edificado na parte mais alta de todo o bairro, também foi alcançado pelas águas que tomaram totalmente a rua Portugal atingindo altura superior a 6 palmos, sendo as casas abandonadas pelos respectivos moradores.

No trecho que fica a Pensão Portugueza, a correnteza tomou as proporções de uma grande cachoeira, parecendo afogado nas imediações, em frente à Casa Inglesa, quando imprudentemente com outros tomava banho o sr. Constante Nunes, comerciante, que até princípios de dezembro estivera estabelecido junto ao “Eden Cinema” e que agora morava nos altos da bagunça dos Aguiares, em liquidação de negócios para se retirar. Para a salvação do inditoso comerciante foram improficuos todos os esforços empregados pelos seus companheiros na brincadeira funesta, atirando-se n’água além de outras pessoas como o sr. Ubirajara Rebouças e José Maria que se precipitaram no rio com o fim nobilitante de arrancar-lhe ás garras da morte.

O edifício do correio também foi atingido pelas águas, que o invadiram, dificultando á distribuição da correspondência das ultimas embarcações, e que foi notado pela comissão postal chefiada pelo dr. Antonio Krichianã, no momento nesta cidade, de passagem para Brasilea.

Jornal: Folha do Acre – 25 de Março de 1926 – Rio Branco – Acre – Pág: 1

* Marcos Vinicius Neves

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