É diferente

Alagação. O assunto não saiu das manchetes do jornal nesta semana. E não era para menos. Foi a cheia mais crítica que Rio Branco já viveu. Um fenômeno natural esperado (até pela época do ano). Só que, ao mesmo tempo, atípico. E que deixou a cidade perplexa, abalada, às vezes meio  perdida e parcialmente solidária. À beira do adjetivo vulnerável.

Ficou até complicado pensar em planos futuros, sem antes recuperar a autoestima da cidade.

Algumas pessoas, mais alheias e indiferentes aos estragos desta enchente, preferiram acreditar que era só mais um ano de transbordamento. Um acontecimento que teima em ocupar grande parte dos noticiários todo ano. Não foi. Desta vez foi diferente.

Talvez porque já estivesse ‘cansado’ de sempre subir e atingir uma pequena parte da cidade (nada que causasse graves consequências, mais como uma espécie de aviso do que uma tentativa de tragédia), o rio foi traiçoeiro desta vez. Todo ano acontecia. Não era a mesma coisa. Mas era parecido. Aí veio 2012, começo de ano difícil. O Rio Acre mostrou que podia fazer mais do que só alagar. Tinha força para fazer um estrago. Em 2014, ele se comportou. Mas, do lado vizinho, o Rio Madeira não deixou a tranquilidade se instalar no coração da população acreana.

E agora 2015…

Acabaram os avisos. Veio à calamidade. Em outros anos, as pessoas olhavam o rio chegar a seus quintais, em pontos mais altos de Rio Branco, e depois ele descia. A maioria dos que tentou a mesma estratégia neste ano se deu mal. Da noite para o dia, as águas não só ficaram no quintal como invadiram o assoalho e nem hesitaram em entrar sem licença em todos os cômodos dos lares rio-branquenses. Em bairros onde ele estava longe, o rio parece que fez de tudo para que igarapés e córregos dependentes deles enchessem também, só para afetá-los pela primeira vez.

Belos espaços públicos no Centro ficaram quase que 100% submersos. O Centro, inclusive, foi quase que evacuado. Uma Rio Branco como nunca se vira. Parecendo até uma ‘cidade fantasma’. A correnteza destruiu coisas que pessoas suaram muito para conseguir. Muitos reclamaram. Moradores, comerciantes, motoristas. Tudo em vão. O rio subiu mais, sem se importar.

Ao fim de muitas ameaças (até ao fornecimento de água potável, o que seria irônico uma cidade alagada não ter água para beber), o majestoso rio desceu. Só que manteve o medo de subir de novo. Nada disso foi planejado. A cidade é que, inconsequentemente, se planejou para crescer às margens de um rio que um dia poderia se revoltar. E assim o fez. A partir de agora, é preciso pensar numa trajetória diferente para a Capital do Acre. Caso contrário, nunca se sabe o que o próximo ano reserva …

* Tiago Martinello é jornalista.
E-mail: [email protected]

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