Nova chance

Era uma vez uma bela e calorosa cidade chamada Rio Branco, que viveu uma grande tragédia devido à cheia do seu rio. E agora o município vive uma conjuntura diferenciada: não sabe se está em tempos de cheia ou de seca. Algo como uma semi ‘pós-alagação’. Parece familiar?

O rio desceu, mas não muito. Saiu dos calamitosos 18,40 metros (o nível mais alto que o Rio Acre já alcançou) e teve vazante. Todo mundo se animou. Acharam que as coisas voltariam ao normal. Só que o rio parou de descer na marca dos 16 metros. E até voltou a ganhar alguns centímetros. Novos sustos. Novo desespero. Ninguém mais pode voltar pra casa, pra sua vida. O povo ficou aflito. Insatisfação. Protestos e até comida jogada fora. Teve até presidente.

Foram mais de 10 mil pessoas desabrigadas e 87 mil atingidos pela cheia. Quase um terço da população da cidade descobriu o que é dormir uma noite despreocupada e acordar de manhã no dia seguinte com água no quintal de casa (se não, já dentro da própria casa). O comércio parou, o Centro fechou, ônibus perderam seu principal terminal. A única coisa boa foi que a cidade descobriu o quanto pode ser solidária e humanitária numa situação adversa.

Apesar de toda a dificuldade pela qual milhares de rio-branquenses acabaram de passar (fora os muitos que ainda estão passando), é hora de tentar seguir em frente. Nem que seja pelo menos em partes. A situação recomenda cautela, como bem disse a Prefeitura de Rio Branco. Muita cautela, diga-se por sinal. O rio é uma incógnita. Pode de descontrolar e subir a qualquer momento.

Todavia, uma hora ele vai entrar nos eixos. É assim que funciona.

Uma chance de levar a vida adiante é tentar voltar à rotina. Retomar o dia a dia. Nesta segunda-feira, 16, começará o ano letivo nas escolas da rede estadual de ensino. As aulas recomeçam não só na Capital, como também em outros 15 municípios. Há quem diga que não têm como mandar seus filhos para a escola enquanto a família chora a perda do pouco que tinha. Estão certos? Erradíssimos. É triste o que aconteceu, mas a educação dos filhos dos desabrigados não espera que a família se reestruture. Não pode ser interrompida.

Pais, não deixem que seus filhos faltem escola. Se a situação é difícil, façam o possível e o impossível para mandá-los estudar. No fim das contas, a longo prazo, os filhos são a nova chance de superar as limitações dos pais. Com estudo, certamente eles terão oportunidades maiores na vida. Não tirem isso deles.

* Tiago Martinello é jornalista.
E-mail: [email protected]

Assuntos desta notícia