História e farsa

É grande a indignação com a corrupção e justa essa vontade urgente do povo brasileiro de ver na cadeia os corruptos comprovadamente responsáveis pela roubalheira na Petrobras, no escândalo do Metrô de São Paulo, na CPI do SwissLeaks-HSBC sobre contas milionárias na Suíça – em cuja nobre lista aparecem a esposa do fundador da Rede Globo de Televisão, Roberto Marinho, e do próprio fundador do Grupo Folha, Otávio Frias, e seu herdeiro Luís Frias, presidente do jornal Folha de São Paulo.

Também é preciso fortalecer o combate à corrupção e isso exige a reforma política. Tomando esse rumo, o Brasil dará um passo histórico para afirmação da nossa democracia. Mas, no engano que pede o impeachment da presidente Dilma e até a volta da ditadura militar, ecoa a perturbadora sentença de Karl Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”…

A tragédia aconteceu em 1954, quando Getúlio Vargas preferiu se matar a ceder ao falso moralismo de uma oposição odiosa.

Já em 1964 a história se repetia como farsa. A oposição ao governo popular do presidente João Goulart recorreu ao golpe militar e deu no que deu. Exílio, tortura, assassinatos, brasileiros desaparecidos até hoje. É de se imaginar quanta corrupção corria por baixo dos panos quentes da ditadura.

Só 1984 o Brasil encontrou forças para voltar às ruas com o movimento “Diretas Já!” e reconquistar o direito de eleger o presidente da República.

Nessa longa jornada, destaca-se uma personagem: Tancredo Neves. Em 1954, ele era o ministro da Justiça e resistiu aos golpistas que tentavam cassar Getúlio, até o suicídio do presidente. Em 1964, foi contra o golpe militar e ficou na oposição à ditadura. Em 1984, estava no movimento “Diretas Já!” e foi escolhido presidente para conduzir a transição para a Democracia.

Tancredo morreu antes de tomar posse, mas fez história. Tanto que seu legado projetou a carreira e a candidatura presidencial do neto Aécio, mas este já é personagem de uma farsa. Derrotado nas urnas, Aécio Neves chegou a constranger o Supremo Tribunal Federal, onde bateu pedindo o impeachment da presidente que o povo escolheu pelo voto direto – este instrumento de igualdade que, mesmo sendo a razão da vida e da morte do avô, a ambição do neto não lhe permite honrar.

* Gilberto Braga de Mello é jornalista e publicitário.
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