Causos de alguém que tem muita história para contar

“Parabéns, minha filha. Que Deus te abençoe e que você continue sendo essa pessoa atenciosa e amável”, foi assim que minha bisavó durante uma ligação me felicitou pelo meu aniversário, ocorrido do último dia 9. Tudo estaria dentro no normal, se a ligação não tivesse ocorrido na quinta-feira, 12.

Fiquei feliz e confusa, mas não deixei que ela percebesse. No próprio dia 9, ela me parabenizou, falou da emoção de acompanhar mais uma volta minha ao redor do Sol. Minha bisavó faz 94 anos nesta sexta-feira, 20. E para mim é um privilégio enorme poder desfrutar da companhia dela. Apesar da correria do dia a dia e das manias dela, procuro sempre que vou lá, entender as razões de cada ruginha que ela tem no rosto.

Algumas são, inclusive, por minha culpa. Das minhas artes e doenças durante a infância. Eu sou muito agradecida por ter recebido tanto carinho e cuidado que só uma bisavó é capaz de oferecer. Mas, o tempo passou, hoje não sou mais criança. E ela? Algumas vezes saudosa, outras vezes triste, mas sempre carinhosa na forma de falar e de abraçar.

Já faz um tempo que ela tem sintomas do Mal de Alzheimer, mas nem por isso, deixou de ser independente. Mas, o tempo tem deixado o corpo dela cada vez mais lento e frágil. Ainda sim, vai a igreja e paga as próprias contas com uma disposição invejável.

Apesar de tentar se manter atualizada. Ela vive em seu próprio mundo. As coisas do passado são mais nítidas para ela do que o dia de hoje. Muitas vezes, a falta de paciência e compreensão atrapalha as relações, até mesmo dentro da família.

Mas, pelo menos da minha parte, o que não falta é gratidão por tudo que ela contribuiu para a nossa família. Ela já avisou que não quer festa. Mas, no fundo, é só uma maneira de lembrar as pessoas que ela ainda está ali, de olho em tudo e em todos, torcendo para que não esqueçam dela.

Com Alzheimer ou sem ele, quem nunca fez isso? Uma espécie de brincadeira, infantil admito, mas quantas jovens ou adultos simplesmente desejaram ser olhados e não só vistos. Transformando a famosa frase de José Saramago em mantra ou num conselho a ser seguido. “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

* Bruna Lopes é jornalista
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