De emendas ao soneto: O PT, o jogo de palavras e o entendimento das coisas

Nos últimos três dias tenho apenas ouvido e apreciado as mais diversas manifestações a respeito da entrevista dada pelo senador Jorge Viana aos colunistas políticos do Acre. Confesso que me surpreendi com tamanha repercussão e as cria-tivas e surreais interpretações feitas por quem não esteve lá. Em que pese o veneno, a ironia e até mesmo o jornalismo sensacionalista, eu ainda tento entender a razão de tanta celeuma. Eu me entristeci ao ver pessoas que não se deram ao trabalho de apurar o assunto em sua totalidade e nas primeiras notas divulgadas já construíram uma interpretação voltada para o embate sem medir as palavras.

Eu estive lá, ouvi atentamente e depois me dei ao trabalho de ler cada manifestação sobre o assunto. E hoje, após vários ataques venho fazer um apelo à racionalidade, ao respeito e ao companheirismo.

Em nenhum momento o senador atacou o governador ou o projeto de Acre do qual ele mesmo faz parte. Mas como privilegiado observador do cenário nacional e local, muito sabiamente, o senador reconhece a importância e a oportunidade histórica de se fazer uma profunda revisão no caminho que nos trouxe até aqui. Um caminho vitorioso, diga-se de passagem.

Pra facilitar nosso diálogo e nossa compreensão mútua quero dedicar especial atenção a três pontos que considero os principais nessa polêmica toda que se criou: O primeiro é a distorção de que o senador teria criticado o governador, quando o que ele fez foi exatamente o contrário; o segundo sobre a necessidade de dinamizarmos a comunicação do governo diante dos atuais desafios; e o terceiro ponto sobre a retomada de valores fundamentais do PT, tanto nacional como localmente, para fazer frente a crise política que está instalada no país.

Então, vamos olhar sem juízos de valor o sentido das palavras do senador, pois, se elas nem sempre iluminam, no mais das vezes pode informar:

Quero começar por algumas notas do jornal A Tribuna, através do jornalista Józimo, que, segundo o próprio senador Jorge Viana, retratou muito bem o tom e o que foi dito na conversa:

– Coluna Bom Dia – A Tribuna – 07/04/2015
“Elogios… Elogia e muito o irmão governador e o prefeito Marcus Alexandre, diz que ninguém trabalha como eles, mas dá firme estocada no secretariado. Quer ver os auxiliares na defesa firme do governo em suas áreas”.

“Cada um na sua: Sobre o irmão governador, o vice-presidente do Senado afirmou que ninguém trabalha mais que ele e apesar da insistência de alguns repórteres não quis avaliar o governo. “Cada um tem seu estilo”, esquivou-se”.

“Reconhecimento: Jorge Viana foi sincero quando afirmou que, enquanto tem secretario remando para trás, o governador Tião Viana e o prefeito Marcus Alexandre se matam de trabalhar. E isso nós temos que reconhecer”.

– Coluna Redação ORB (Astério Moreira e Marcio Nunes) – O Rio Branco – 08/04/2015
“O que o Jorge disse… Que não saiu ainda na imprensa: Que o governador Tião Viana é muito trabalhador, que tem sacrificado sua vida e da sua família em defesa do Acre. O Tião é médico, mas daqui a pouco vai ter que cuidar da saúde dele de tanto trabalhar e se preocupar com o Estado”.

“E mais… O Tião é diferente de mim e do Binho e isso não é ruim. Segundo Jorge Viana, cada um tem seu estilo próprio de governar. O esforço dele pra ver o Acre produzindo é muito grande”.

Conclusão: O senador afirma categoricamente o esforço que o governador realiza, como governante e ser humano dedicado que é. Quanto ao secretariado acho cedo demais para uma avaliação, minha opinião.

Sobre a polêmica em torno da comunicação, quero mostrar mais uma vez o jornal A Tribuna:

– Coluna Bom Dia – A Tribuna – 07/04/2015
“Guerras… Disse, com muita propriedade, que o governo e o PT enfrentam três crises: econômica, política e de comunicação. E que corre o risco de perder as três”.

“Falta comunicação… O senador Jorge Viana reuniu jornalistas ontem cedo no Café da Toinha. Pediu uma baixaria e subiu o tom das críticas. Cobrou mais comunicação do PT e do governo com a sociedade e disse que os secretários precisam se comunicar melhor, cada um ser líder de sua área”.

“Mea-culpa… Ex-prefeito e ex-governador, Jorge Viana lembrou aos jornalistas que o PT nunca acertou a mão na comunicação. “E eu me incluo nisso”, completou”.

Conclusão: O senador, assumindo-se como um dos que, também, teve dificuldade na área, aponta simplesmente para a necessidade de a comunicação ser tratada a partir dos desafios do presente, naquilo que ele assinalou como as três crises do PT. Ou seja, a comunicação é um dos eixos no qual o senador avalia a necessidade de nos debruçarmos.

A nota emitida pelos companheiros Leonildo Rosas e Andréa Zílio, revelou uma atitude defensiva desnecessária, afinal, a comunicação está longe de ser um desafio de poucos. Interessa a todos nós do campo progressista, sobretudo numa arena em que estamos claramente em desvantagens. As observações do senador não foram sobre a gestão desses companheiros, portanto, o sentido da nota reflete dificuldades em avaliar a complexidade do tema.

Para concluir falo sobre o PT, (meu partido) utilizando outra vez o jornal A Tribuna:
“Pés descalços… Prefeito de Rio Branco duas vezes e por igual período governador, Jorge Viana avalia que o PT precisa voltar a ser humilde, a descer do salto alto e andar com os pés descalços, voltar a dialogar com a sociedade e trazer de volta as pessoas que abandonaram o partido.

Em nota enviada ao jornalista Józimo, divulgada dia 8 no jornal A Tribuna diz:
“..Não afirmei que sou contra chapa puro-sangue do PT.. Eu respondi que era radicalmente contra discutir 2016 em 2015. Agora, a decisão da chapa precisa ficar para 2016, seja puro-sangue ou com aliança. Quem suscitar esse debate independente da intenção, termina trabalhando contra o nosso governo e nossa prefeitura. Esse é o típico debate que precisa ser coordenado pelo nosso prefeito e pelo Tião, com todos ajudando, e só em 2016”.

Ressalva: Faço um destaque para o posicionamento do deputado federal Leo de Brito e Sibá Machado que, mesmo discordando em alguns pontos, mas, no entanto, foram respeitosos.

Conclusão: O senador Jorge Viana em nenhum momento disse que não é o PT que decide a candidatura a vice em 2016. Disse que passava pela coordenação do prefeito e do governador. Sempre foi assim.

Não se esqueçam… o pau que dá em Chico dá em Francisco… Um olhar mais atento vai rapidamente perceber que ele próprio se tornou alvo de criticas dos jornalistas que estiveram com ele, o que ele sabia de antemão que iria acontecer. O que prova inequivocamente que o desejo dele foi mesmo o de promover um processo de critica e autocritica do atual momento político.

A meu juízo, a ascensão conservadora tem a clara intenção de nos levar a extinção, nossa historia e o legado de lutas de milhares de lutadores/as. É preciso termos coragem para fazer o bom combate, antes de tudo com o espírito desarmados entre nós, afinal, os inimigos políticos não descansam.

Nós, do PT, sobretudo, temos enorme responsabilidade pelo tempo presente e o imediato futuro do Brasil. De nossas ações e gestos dependem muita coisa, para a sociedade como um todo. Sobre isso não podemos tripudiar, menos ainda arranjar falsos demônios no nosso meio, já os temos em grande número nas classes dominantes.

Se resolvermos que temos relevância para o Brasil e o Acre, se somos portadores dos melhores sonhos de nossa gente sejam humanos, errando, com nossas contradições e incoerências, todavia, sejamos, sobretudo leais uns com os outros. Venceremos!

* Carlos Alberto Bernardo Araújo (Cacá)
Advogado e Assessor Político

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