“Quem parte, quem fica; o que significa!”

As duas últimas semanas se caracterizaram por notícias tristes. Em poucos dias, recebi a partida de quatro pessoas que eu admirava profundamente. Por isso, hoje, aqui, minha homenagem aos que nos deixaram exemplos tão preciosos e que, por isso mesmo, não devem ser esquecidos.

Eu era apenas um rapazote ainda. Mal havia entrado na faculdade e, do alto da minha santa e libertária irresponsabilidade de jovem, achava que podia tudo então. Foi quando a Claudeca, da minha sala no curso de história, nos levou até o apartamento que ela dividia com um amigo chamado Zé.

Assim que entramos no ap, dei de cara com uma pichação no meio da parede da sala. Com tinta-spray preta estava escrito: Quem não vê o azul do céu, perde o poder do pássaro! E o impacto que aquela frase teve em mim foi imenso. Afinal, eu sentia que estava, finalmente, abrindo as asas e, mais ainda, prestes a alçar voo.

Nos meses seguintes, tivemos a oportunidade de sermos felizes naquele pequeno apartamento onde vimos o universo se expandir diante de nossos olhos incrédulos. Tudo graças ao Zé Bello, que se tornou uma espécie de tutor e guia de todos nós. Não havíamos entendido ainda que o Zé era um educador por excelência e fazia isso não só profissionalmente, mas também em seus afetos cotidianos.
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Pouco tempo depois, recebi a notícia de que Seu Chico do Bruno também havia partido. Confesso que sei muito pouco sobre a vida e as histórias dele. Mas, sei também que nas vezes que o vi em ação junto com Seu Aldenor na Marujada, fiquei encantado por aquele jeito rude e ao mesmo tempo sensível que ele exprimia em sua música.

Tantas e tantas vezes, pra meu desespero, desempenhei o papel de conter Seu Aldenor e Seu Chico do Bruno para que eles tivessem condições de fazer a apresentação da Marujada, tamanha era a agitação e felicidade em que eles ficavam, que um se tornou a extensão do outro diante de meus olhos aflitos e encantados pela beleza e força da cultura popular que eles traziam à flor da pele.

Do jeito que ele era, não duvido nada que seu Chico do Bruno esteja agorinha mesmo tocando banjo, ou trompete, num forro animado lá por cima… Pra inveja e saudade de Seu Aldenor e nossa.
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Na quinta feira passada estava eu em Xapuri, fazendo um levantamento para auxiliar a prefeitura conforme foi acordado pelo senador Jorge Viana, quando me vi diante da Casa Kalume. Logo passou aquele usual filminho na minha cabeça em que me vi entrando ali e tendo contato pela primeira vez com Seu Antônio Zaine, há alguns bons anos atrás.

Impossível não me encantar com o que encontrei ali naquele dia. Os balcões, prateleiras e caixa registradora gigantesca de uma das mais importantes casas aviadoras do Acre ainda estavam ali em seus lugares, intactas. Entretanto, não havia mais mercadorias esperando fregueses, como outrora. O que ocupava todos os espaços eram objetos antigos, pedras, fósseis, armas enferrujadas, fotografias esmaecidas e páginas de jornais amarelados penduradas em longos fios. Em meio àquela caótica organização, um vibrante senhor com forte sotaque, misto de paulista com libanês, que a todos tratava como prezado. E, pra minha completa surpresa, o vi despejar sobre mim uma enxurrada de informações sobre os melhores anos de glória do  Acre e de Xapuri, materializados naqueles objetos empoeirados que ele acariciava enquanto os usava para compor o fio da meada de sua narrativa sem fim… Foi assim que conheci e passei a admirar Seu Antonio Zaine.

Quando meus olhos voltaram a focalizar o que de fato eu estava vendo naquele momento, percebi que as portas da Casa Kalume estavam abertas e cai na besteira de entrar. Só pra constatar os rastros da destruição que a última alagação deixou ali. Estantes tombadas, garrafas quebradas, balcões desmanchados e lama ressecada impregnando tudo. Não pude deixar de perguntar aos que comigo estavam: como está Seu Zaine? E a resposta era a que eu esperava mesmo: Ainda está bem doente.

No dia seguinte, sexta, pela manhã cedo, eu contava isso tudo à minha companheira quando recebi uma mensagem no celular noticiando que Seu Zaine também tinha nos deixado. Ai ai ai, saudade é mesmo uma dor que não tem remédio que dê jeito.
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Pra terminar esses dias de despedidas tão sofridas, nessa semana nos deixou Eduardo Galeano. O mais extraordinário pensador e escritor de nossa Latino América sangrada que já tive a oportunidade de conhecer. Claro que nunca tive a felicidade de estar pessoalmente com ele. Falo assim porque desde que o li pela primeira vez e a cada novo livro dele que caia nas minhas mãos, sentia a nítida impressão de conhecê-lo como se na minha frente estivesse. Escritos translúcidos de um homem cujo trabalho foi revelar a beleza e a dor de nossas histórias. Desde então tenho me sentido órfão. Acho que dá de entender, não?

E como me sinto completamente incapaz de chegar ao menos próximo das qualidades e das profundidades que ele cultivou por toda a vida, peço a ele as ultimas palavras deste artigo tão difícil de escrever.

– “Vivemos em plena cultura da aparência: o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus”.

– “Na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre”.

– “Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada na garganta”.

– “Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara”.

– “A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo.”

Eduardo Galeano

* O título desse artigo são versos de uma das musicas do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, que ouvíamos naquele tempo em que a ditadura, finalmente, conhecia seus estertores e nós, felizmente, aprendemos o poder do pássaro.

Marcos Vinicius Neves

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