Cá por este mundo em férias folgazãs

É fácil viver, desde que não  seja em prejuízo de ninguém. Sorrisos e contingências há que abrem portas e, inclusive, janelas através das quais pode-se muito bem evadir-se por destinos ignorados, enquanto as tempestades da vida passam, porque tudo passa, inclusive o passageiro do trem da história do menino farto de ideias.

E assim, ele foi aprendendo que viver bem é viver em paz consigo mesmo. Desde cedo, passou a observar que os destemperados passam por toda a existência e não conseguem colocar gosto na vida, nem sal, nem pimenta do reino, nem alho e nem esse modernoso tempero completo.

Um dia, então, ainda muito cedo da vida, o menino calmo demais constatou que o homem forte lá da sua vivenda era o responsável pelo pão diário que alimentava menos que uma dezena de bocas ávidas no café da manhã, no almoço e no jantar, sem contar uma certa farofa de pássaros fritos, na banha do porco, aí pelo meio da tarde.

Antes, mais cedo ainda, pensava que tudo era tirado da horta. Pior é que o homem musculoso nos seus cinquenta anos se esforçava muito num trabalho hercúleo, de sol a sol, numa rotina estafante que consistia em subir e descer barrancos com os destinos dos filhos pesando-lhe às costas. Aquilo era ser um pai de verdade.

Em pouco tempo, o menininho magro e em cabelos rebeldes começou a pensar nas possibilidades de fazer alguma coisa em auxílio daquele homem quase de ferro que, certamente, um dia cansaria e, mais tarde, viria a faltar de uma vez por todas para as suas crianças tão lépidas e tão amadas. O que poderia ser feito por uma criança?

Apesar de ter vindo a este mundo em férias, algo deveria ser feito nas horas vagas em que o ócio se tornava enjoativo. Apenas estudava, fazia as tarefas, lia romances, arremedava jogar algum futebol, e só.

Por isto, o garotinho ossudo planejou tornar-se um negociante em sociedade com a mãe, aos dez anos. À noite, iam os dois, de olhos presos no futuro, para a venda de lanches aos alunos de uma escola próxima à vivenda próspera e feliz. Bom foi notar que o negócio fluía. Algum dinheiro ganho permitia, agora, assistir a um filme no antigo Cine Rialto. Passou, com os irmãos, a usar roupas e sapatos de melhor qualidade, comprava picolés e livrinhos estilo gibi. A vida e a bonança lhe sorriram festivamente. Não foi lá tão difícil galgar aquela montanha de pequena prosperidade.

Mais tarde, as roupas ficaram mais caras e o número de irmãos era bem significativo. O menino de olhos castanhos de bolacha gostava de viver folgadamente, em férias ininterruptas, mas, para tudo isto, havia um custo.

Foi aí que o pequeno sonhador arranjou horas vagas e foi trabalhar na famigerada indústria da construção civil porque, neste momento, já entrava um item a mais no orçamento diminuto. A cerveja tinha preços exorbitantes para quem ainda vivia a décima sétima volta ao redor do sol. Ademais, uma dama de companhia já gostava de tomar guaranás na inesquecível boate do caboclo da morena. Ah, sim! Eis o primeiro romance do rapazola em trajes da moda. Anos setenta.

Mesmo tendo vindo a este mundo de férias, ele percebeu que durante oito horas do dia algo poderia ser feito de forma a que algum esforço fosse transformado em dinheiro. Certo é que aprendeu a trabalhar porque nada tinha para fazer. Mais tarde, à sombra da luz da lua, sob o teto das estrelas, dormiria, ou sairia por aí, bem acompanhado ou sozinho, de bar em bar, às sextas e aos sábados, é claro.

Todos de casa eram muito transparentes e sólidos, de carne e osso. Alguns tinham mais osso que carne; outros, mais carne que osso. Daí que, com a transferência da família real para a capital, a realidade que dava os tons das cores da adolescência, se fez mais concreta, mais nítida. Das duas, uma. Vencer ou vencer.

Envolvido nos folguedos da idade, sempre levando a vida em tom de brincadeira, ou quase, foi observando que os estudos se adensavam a cada dia que passava no transcurso do tal nível superior. Bem melhor foi que veio um concurso público para um cargo de barnabé federal. O soldo e as garantias se fizeram extremamente vantajosos para um rapazola vindo do interior, sem eira e nem beira e nem a rama da figueira.

Veio o carrão bacana, um curso superior e outras conquistas no mundo acadêmico. Todavia, nada disso serviu de alavanca para o nariz do moço que queria apenas os deleites da vida folgazã que lhe permitia alguns ou muitos caraminguás no bolso e na conta bancária.

As moçoilas do bairro olhavam o agora canastrão com os olhos da cobiça. Havia sede em olhares que se cruzavam aos do poeta abobalhado. Como antes, os cabelos já não tinham nenhum pingo de cimento. No geral, havíamos melhorado todos juntos. Eu e elas.

Àquele homem rude da minha periferia social, então, o versejador miúdo deixou escrito em letras garrafais:

– Meu interpelador de fato e de direito, devo dizer-te que não mais se compram mulheres, de forma alguma. Há dois séculos tal fato não ocorre nos rincões pátrios. Vivemos um tempo em que o belo gênero dá as cartas ou as divide com os mais rudes e grosseiros, desde que estes sejam espadachins um tanto carinhosos e bons na pegada.

Todavia, pensando bem, penso como pensa o manobreiro de palavras. Se você é um cavalheiro, um homem gentil, pode dar-se até ao luxo de abrir a porta do ferrari, cortesmente, de forma a fazer a dama entrar em estado de pura felicidade estampada no rosto de talco caro ou barato. Ah, como as mulheres são especiais!

Com elas, sempre convém aprofundar-se. Ir mais fundo é uma questão de sobrevivência.Por isto, necessito observar que o belo gênero é também objetivo, apesar de pouco negociador; e que o gênero rude pode ser prático, mas é desajeitado, descortês e tropeça nas próprias palavras ou nas pernas bambas na superior maioria das vezes. São caóticos por excelência, notadamente, quando o contexto ou o texto exigem elegância da parte de quem o produz.

Certo é que o mundo não exigiu tanto do misturador de rimas. Ele foi andando, calmamente, no mais das vezes, e cumprindo os papéis que a natureza lhe colocou enquanto tarefa. Desempenhava-os de tal maneira que, em seguida, as recompensas chegavam enquanto portadoras de boas notícias. As esquivas eram usadas, aqui e ali, nos momentos confusos e também ao redor dos que gostavam de gerar confusão.

Aí foi a vez da moça que um dia disse a mim ser eu a gentileza em pessoa. Eu assenti e, em casa, houve por bem pensar que, além de gentil, sou político do mais fino trato  –  no bom sentido, é claro  -porque o que eu não quero para mim eu também não quero para ninguém.

É óbvio que, em meio a tudo isto, andei tropeçando depois de algumas ou muitas talagadas generosas de uma caipirinha de kiwi. Em tais tropeços, prejudiquei minimamente, enganei um pouco, cometi mentiras leves, arranquei corações ainda pulsantes de peitos juvenis cheios de amor para dar.

Rio de Janeiro. Numa das tantas vezes que por ali voejou, o amigo delegado, num dos botecos da Lapa, perguntou ao poeta meio lerdo sobre como andava por este mundo essa alma abespinhada.

– Tenho vivido de pequenos crimes, talvez furtos mínimos, mas insidiosos, aqui e ali, nas esquinas da vida, quando, mais uma vez, desisto de me apaixonar por quem não vale à pena. É a mais pura verdade, meu irmão.

*Autor de Janelas do tempo, livro de crônicas, de 2008; e O inverno dos anjos do sol poente, romance, de 2014, à venda na Livraria Nobel do Via Verde Shopping.

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