O lado bom

Estar doente é horrível. A morte causa um temor indescritível. Seu conceito de fim, por si, é triste. E o caminho até ela é tão ruim quanto o suspiro derradeiro. A vitalidade se esvai, e a ausência da vida provoca uma dor muito além da parte física. O grande abalo é psicológico. E quando a mente está em pane, não adianta tentar fazer mais nada. Quando o final não é feliz, poucos são aqueles que se dispõe a assistir a novela inteira, até o último capítulo.

É nesta condição que vivem milhares de pessoas no Brasil, acometidas por doenças crônicas e, em determinados casos, até terminais. Assim vivia o acreano Lúcio César Leite, junto de sua família. Ele descobriu, em 2013, que tinha cirrose hepática. Seu fim era iminente, a não ser que conseguisse um transplante de fígado para salvar a sua vida. Trabalhava como vigia e, devido a suas condições, seria muito difícil viajar para fora para custear uma cirurgia tão complexa.

Em 31 de março de 2014, Lúcio César e sua esposa, Inaveiz Alves, receberam a ligação que daria um fim a seu sofrimento. Era da Secretaria estadual de Saúde (Sesacre) e informaram que ele estava apto a fazer o transplante aqui. O exame de compatibilidade, realizado entre Lúcio e um possível doador de órgãos, tinha dado positivo. Em 5 de abril, ele fez a cirurgia. Hoje, um ano depois, ele aos poucos está recuperando a sua rotina. Está quase terminando a recuperação do transplante e até já faz planos para voltar ao batente.

Para Lúcio César, o transplante de fígado foi um renascimento. No entanto, em décadas passadas, quando o Estado não tinha estrutura para realizar um procedimento tão avançado e dispendioso, talvez o vigilante não tivesse a mesma sorte. Seu destino poderia não ser tão feliz. E é para evitar esta sina trágica que o Acre continua investindo para viabilizar cada vez mais transplantes para os pacientes necessitados. Paralelamente, investe em muitos outros tratamentos também.

Podem criticar a Saúde daqui. E em muitas reclamações há erros gravíssimos mesmo. Isso não se discute. Por exemplo, é inadmissível que uma mulher dê à luz na recepção de uma maternidade, esperando atendimento (mais absurdas ainda foram algumas explicações que deram para o caso). Mas, por outro lado, há trabalhos maravilhosos nesta área. E é verdade que o lado bom não justifica o ruim. Só que o lado bom também não deve ser desprezado.

O sistema falhou. Que droga! Custou uma vida? Pior ainda. Hora de se lamentar? Com exceção dos familiares e amigos da vítima do erro, não há razão para lástima. Os gestores da Saúde têm é que reconhecer os equívocos e tentar consertá-los. Tomar medidas corretas para cada ocasião. Já o trabalho que está dando certo deve ter o devido reconhecimento e ser aprimorado. Afinal de contas, uma banana podre não estraga o cacho.

* Tiago Martinello é jornalista.
E-mail: [email protected]

Assuntos desta notícia