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Francisco Assis
Francisco Assis dos Santos é filósofo e humanista. Email:[email protected]

Um caminho sem volta

Se, hipoteticamente, cada cidadão brasileiro, só para falar do Brasil, descer as entranhas da violência objetiva que, a cada minuto, afeta dezenas de milhares de pessoas que tem seus pertences surripiados de forma violenta, notadamente na via pública. Se, ao menos, cada um de nós parar para pensar o que temos presenciado nestes dias, para não dizer nas últimas horas, no campo da violência, e por tudo o que já  vivemos de mal, neste mundo, morrem ou morreriam as esperanças, no presente século XXI, de que os homens assumam atitudes mais civilizadas, concernente aos direitos do outro. Mas, é justamente neste século que agora iniciamos que a violência vem se apresentando em suas formas  mais insidiosas, mais cínicas, num grau de refinamento que provavelmente supera em muito os períodos mais cruéis da história da humanidade. Genocídios e torturas “cientificamente” organizados; perseguições de todos os matizes, depurações raciais e “limpezas étnicas”; êxodo forçado de populações inteiras e grupos sociais indefesos; terrorismo em formas inumanas; segregação e/ou exclusão econômica, racial e religiosa, todos são comportamentos individuais e coletivos que traduzem nada mais, nada menos, do que o simples e cruel desejo de destruir o outro.  O “outro” diria Emmanuel Lévinas, filósofo francês da ética da alteridade, de deu lugar ao “EU” violento, violentador e violentado.

A violência tornou-se um fato massivo nas sociedades pós-modernas, uma situação irreversível, a ponto de constituir um verdadeiro desafio para a consciência moral do nosso tempo. A multiplicação da violência se apresenta como um contra-senso no momento em que nossa compreensão dos fenômenos naturais e sociais; em que o avanço do saber científico e das conquistas da razão; em que a consciência do valor e do respeito à vida pareciam afirmar-se definitivamente de modo indiscutível.



Faz tempo, que o assunto sobre violência, saiu do campo das teorias das ciências humanas para alcançar e preocupar o humilde cidadão que, de conhecimento, só possui o sensitivo. É clamor para todo lado! Há uma eterna preocupação com os altos índices de violência no lar; no transito; nos campos de futebol; nos plenários legislativos, com seus eternos bate-bocas; nos eventos de entretenimento; na escola e, pasmem, no seio das polícias instituídas.

A pluralidade de “ideias” ou “saídas” para a realidade violenta, emana de todos os segmentos da sociedade em busca de soluções para a má notícia. Nesses “debates” a pergunta é a mesma: Onde está a resposta para o problema da violência? Estará em mais ação da polícia? Numa punição mais rigorosa (a pena de morte)?  Em mais elevada educação? Em atitudes governamentais mais rígidas?  Estas e outras interrogações são feitas por todos nós, todos os dias e em todas as horas de aflições porque passamos. Ninguém parece ter respostas para estas perguntas. As respostas, quando muito ficam no campo dos debates simplórios. Fala-se, e muito, na criação de programas de inclusão social, educação, etc. Do combate ao desemprego, a miséria, às drogas, má distribuição de renda. Mas, tudo isso é  clichê mil vezes repisado  sem que se tenha, contudo, soluções concretas. Alguns dizem que o sistema tributário, em vigência no Brasil, aprofunda essa desigualdade.

Presunçosamente, afirmo que além desse sistema perverso, essa condição de desigualdade é uma condição que retrata no mais alto grau um tipo de violência subjetiva, a maldade do homem contra seu semelhante. Nem o mal advindo da natureza, como os terremotos que ocorrem Oriente, matando dezenas de milhares, assemelha-se as maldades do homem contra homem. Essa maldade moral é uma casta  tão assustadora que, salvo por uma intervenção divina, diria Santo Agostinho, nos fará, desgraçadamente, sucumbir a todos. Os efeitos dessa maldade moral, segundo estatísticas recentes, retratam um quadro assustador.

Se não bastasse ao cidadão o convívio  com toda essa brutalidade, tem, além disso, que se moldar à ferocidade: do determinismo legal de certos governos, que vivem a favorecer uns poucos em detrimento de muitos; do partido político demagogo; da lei do mais forte contra o mais fraco; do sistema financeiro que leva o homem a ser explorador do próprio homem; dos arruinados sistemas de saúde, educacional e carcerário.

Confesso a minha descrença e o meu pessimismo quando o assunto é debelar a violência. Estou no patamar da desilusão, e não estou só: há miríades, dezenas de milhares de brasileiros desiludidos.  É uma situação endêmica, um câncer progressivo e degenerativo, que nos afeta a todos. Um caminho sem volta.

*Pesquisador  Bibliográfico em Humanidades.
E-mail: [email protected]

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