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Nenhum acreano doou medula óssea

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Embora a doação de sangue seja uma ação bastante propagada e conhecida pela população, ainda existem muitas dúvidas quando o assunto é doação de medula óssea. Ainda assim, essas duas formas de doação são muito importantes e capazes de salvar vidas.



Os pontos de interrogação acerca do assunto são diversos, a começar sobre o próprio conceito de medula óssea. Pouco difundida na sociedade, esta medula trata-se de um tecido gelatinoso encontrado no interior dos ossos, Conhecida popularmente como “tutano”.

Embora seja confundida com a medula espinhal, que fica no interior da coluna vertebral e transmite os impulsos nervosos, é na medula óssea onde encontramos as células responsáveis pela fabricação das células sanguíneas (hematopoese).

De acordo com o oncologista Antônio Vendetti, mesmo com uma deficiência na divulgação, o número de doadores de medula óssea no país tem aumentado. Segundo ele, há 15 anos, eram apenas 12 mil inscritos no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome). Porém, desde 2014, o Brasil já chegou à marca de 3,5 milhões de doadores cadastrados.

Oncologista Antônio Vendetti explica como é o transplante. (FOTO: ODAIR LEAL/AGAZETA)

Vendetti ressalta que um dos fatores determinantes para a realização do transplante é a compatibilidade. Ele frisa que devido a miscigenação no Brasil, as chances de alguém encontrar um doador de medula compatível são menores que em outros países.

Compatibilidade e transplante

Vendetti explica que para ter certeza da compatibilidade entre doador e receptor, faz-se necessário a realização de um exame chamado histocompatibilidade (HLA). “A compatibilidade do tecido é determinada por um conjunto de genes localizados no cromossomo 6. Para que a doação ocorra, esse conjunto deve ser igual entre doador e receptor”.

O transplante é indicado para pacientes com leucemia, linfomas, anemias graves, imunodeficiências e outras 70 doenças relacionadas ao sistema sanguíneo e imunológico. Pode ocorrer através de dois tipos de procedimento, autólogo e o eterólogo. No primeiro caso, o próprio transplantado é doador e no segundo, a medula é oriunda de outro indivíduo.

“O caso do transplante autólogo é para algumas situações onde não tem uma doença muito indiferenciada, ou seja, que atingiu a célula matriz”, esclareceu o oncologista ao afirmar ainda que ambos os procedimentos se assemelham a uma transfusão de sangue.

“A medula óssea é um tecido que continua em expansão, ele cresce o dia inteiro. A pessoa é capaz de doar medula óssea infinitas vezes sem causar nenhum prejuízo ao indivíduo. É um procedimento simples. É feita a retirada de um pouco de sangue de dentro do osso da bacia, é feito sob anestesia porque é um pouco incomodo”, esclareceu Vendetti.

Rejeição

Antonio Vendetti destaca que a rejeição ocorre quando o sistema imunológico do receptor não reconhece o novo tecido e passa a produzir anticorpos contra ele, o que acaba causando a destruição do órgão transplantado e pode levar à morte.

Ele frisa que no caso de transplantes autólogos o risco de mortalidade é de aproximadamente 5%. Em relação ao transplante do tipo eterólogo, essa probabilidade chega a 20%.

“Quanto maior for a diferença de antígenos, maior a causa de rejeição e mais ela será rápida e grave. A rejeição não é contra a medula. Quando o leucócito crescer na medula, a célula da defesa vai começar a rejeitar o paciente. Pode inflamar o pulmão do paciente, o coração, o rim, é o que chamamos de doença do enxerto hospedeiro”, afirmou o oncologista.

Lei garante isenção de taxa de inscrição em concursos públicos para doadores de medula óssea

Deputado Jenilson Leite apresentou o Projeto de Lei. (Foto: Agencia Aleac)
Deputado Jenilson Leite apresentou o Projeto de Lei. (Foto: Agencia Aleac)

Com o objetivo de incentivar a doação de medula óssea no Estado do Acre, o deputado Jenilson Leite apresentou à mesa diretora da Assembleia Legislativa (Aleac) um projeto de lei que isenta os doadores de medula óssea da taxa de inscrição nos concursos e nos vestibulares estaduais.

A lei foi sancionada pelo governador Tião Viana no mês de julho e abrange ainda os doadores de sangue e garante também o direito da meia-entrada em eventos culturais, bem como utilizar o transporte público gratuitamente nos dias de coleta.

De acordo com o deputado, para ser contemplado com a lei, o doador de medula óssea deve apresentar documento com a cópia do seu histórico de doações. “É uma forma de reconhecer a importância de quem doa, pois isso significa vida. A gente sabe que, com esses benefícios, as pessoas podem se sentirem mais animadas em doar”, ressalta.

O doador de sangue, por sua vez, deve apresentar carteira expedida pelo órgão oficial de hematologia e hemoterapia ou entidade credenciada no Estado e deve ter no histórico ao menos três doações em um período de 12 meses.

Jenilson destacou que o projeto se baseou em dados do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Acre (Hemoacre). Ele frisa que quem deseja fazer a doação deve estar atento ao que diz o texto da lei para não interpretá-la de forma errônea.

“Não queremos dizer com isso que quem doa sangue deve vender esse tecido. O que fizemos foi colocar à disposição benefícios para as pessoas que se disponibilizarem a doar medula óssea, bem como sangue”, salienta.

O deputado destaca que a lei, que teve boa repercussão na sociedade acreana, não fere a legislação do Sistema Único de Saúde (SUS).

“Quando apresentei o projeto, o objetivo era buscar ajudar o setor da saúde, por isso repercutiu bem. E não entra em atrito com os preceitos constitucionais e legislativos do SUS”, finaliza.

Hemoacre enfrenta o tabu da doação de medula óssea

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O desconhecimento e a falta de informação são as principais causas de o Acre possuir um pequeno número de possíveis doadores de medula óssea. Através de uma doação de sangue simples, uma pessoa pode descobrir ser compatível com outra acometida por algum tipo de câncer no sangue. Um ato que salva vidas.

A gerente de captação do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Acre (Hemoacre), Marlice Aquino, explica que uma amostra é coletada no próprio Hemoacre e enviada para Goiânia para determinar as características genéticas que são necessárias para a compatibilidade entre o doador e o paciente.

“Os resultados ficam no banco de dados, conhecido como Registro Brasileiro de Doadores de Medula Óssea (Redome), ligado ao Instituto Nacional do Câncer, o Inca, que é quem faz a triagem entre doadores e receptores. A possibilidade de encontrar duas pessoas com medulas ósseas compatíveis é de 1 em 100.000 pessoas e, desta forma, a doação só ocorre quando existe uma pessoa que necessita do transplante e que tem compatibilidade com o candidato a doador”, detalhou a gerente.

Vale ressaltar que quanto maior número de pessoas possíveis cadastradas é mais provável encontrar doadores. Além disso, o doador deve estar consciente de sua decisão. “Quando se encontra duas medulas compatíveis, o transplante é feito em até 15 dias. Até receber o sangue saudável, o paciente recebe uma dose muito alta de radioterapia. Se o doador desistir, o paciente certamente morrerá”, avisa a gerente.

Hoje existem mais de 5 milhões de doadores no mundo. No Acre são pouco mais de 600 cadastros. Marlice lembra que dois possíveis doadores já foram localizados por amostras colhidas no Hemoacre.

“No primeiro caso, o último exame apontou uma queda no percentual de compatibilidade e os médicos não descartaram a doação. E, recentemente, encontramos outro doador. Já fizemos o contato com ele e estamos aguardando o retorno dele ao Hemoacre. Nenhum acreano ainda doou medula”, destacou.

Ao contrário do que a muitas pessoas pensam, não existe possibilidade de o doador ficar com sequela, após o procedimento. “Muita gente confunde medula óssea com medula espinhal, onde fica a coluna e passa um turbo nervoso. Acham logo que vão ficar paraplégicos e não tem nada disso. É um procedimento simples, se comparado com outros tipos de transplantes. Ele não é feito no Acre, por isso, todas as despesas do deslocamento do doador até o Estado são custeadas pelo Ministério da Saúde”, confirmou Marlice.

O procedimento dura 40 minutos, é indolor, e após ficar em observação por um dia, o doador já pode voltar pra casa. “Doar medula é doar de vivo pra vivo, sem dor, com internação de apenas 24 horas, sem sangramento e com um retorno às atividades normalmente em 72h”, apontou Aquino.

Números no Acre

Segundo o Hospital do Câncer do Acre, de 2007 a junho de 2015 foram admitidos 5.924 pacientes deste total, 380 são crianças e adolescentes (0 a 18 anos). Sendo que 150 tiveram o diagnóstico de Leucemia ou linfoma.

Dos 5.544 pacientes adultos, 285 foram diagnosticados com linfoma ou Leucemia e outros 96 foram diagnosticados com doenças mielodisplásicas.

Quem pode doar?
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Qualquer pessoa entre 18 e 55 anos, gozando de boa saúde, pode ser doador de medula óssea. É necessário comparecer ao Hemoacre com documento original com foto, Cartão do SUS e preencher um formulário com dados pessoais e doar 5 ml de sangue.

O Hemoacre funciona de segunda a sábado, das 7h15 às 17h40, na Avenida Getúlio Vargas, 2.767, ao lado do Teatrão.

Mulher curou o câncer apenas com quimioterapia

“Eu sou mais que vencedora”, afirma Daiana Miranda
“Eu sou mais que vencedora”, afirma Daiana Miranda. (Foto: Arquivo Pessoal)

Vencer o câncer é uma das maiores batalhas na vida de quem já teve a doença. A incerteza da cura é uma pedra no caminho que precisa ser substituída pelo otimismo e a esperança de um futuro. E foi isso o que a gestora de Recursos Humanos, Daiana Miranda, 32 anos, fez.

Há um ano, Daiana descobriu que tinha câncer no sangue, o Linfoma Hodgkin. Ela percebeu que tinha algo errado quando estava na academia. A gestora estranhou a falta de energia e a indisposição que sempre sentia com os exercícios. Por isso, ela resolveu procurar um médico.

Foram várias idas ao hospital e vários exames até chegar à conclusão da doença. E lutar contra o câncer só foi possível devido à vontade que ela tinha em viver para ver o filho Kauã, de 12 anos, crescer. Além disso, a ajuda do namorado e a cumplicidade dos amigos a mantiveram firme.

Com oito quimioterapias, Daiana fez uma tomografia e identificou que a massa tinha diminuído muito, porém, ela ainda existia. “O médico me disse que se eu não me livrasse da massa até a 12ª quimioterapia, eu teria que transplantar. No entanto, o 1º transplante que eu faria seria ‘de mim para eu mesma’, pois eu havia retirado a minha medula logo no início, quando ela ainda não estava comprometida”, explica.

O medo maior de Daiana em precisar fazer transplante era depender da doação de outras pessoas, caso a medula dela não servisse. A gestora destaca a dificuldade das pessoas na fila de espera por uma doação de medula. “Precisar de um doador é a mesma coisa que o fim do mundo, porque ninguém quer se disponibilizar ao outro. Você vive na corda bamba o tempo inteiro. As pessoas precisam se conscientizar e se mobilizar. Elas não sabem o bem que podem fazer sem custo algum e sem dor. Fazer a retirada de uma medula não é nada na frente da vida que você vai salvar”.

A recuperação de Daiana Miranda ainda é recente. Passar tão perto da morte modificou totalmente a forma como ela via o mundo. “Eu sou mais que vencedora. Não sou hipócrita de dizer que gostei de ter câncer. Ninguém nunca vai gostar de ter câncer. Mas posso dizer que Deus me deu uma grande lição. Aprendi que tudo é no tempo Dele, e não no nosso. Hoje, eu sou uma pessoa muito melhor e vou ser uma esposa muito dedicada”.

Eu vivo o agora como se não existisse o amanhã”, declara jovem com câncer

Andréia Alves passou quatro meses internada lutando contra um câncer agressivo. (FOTO: ODAIR LEAL/AGAZETA)

Andréia Alves passou quatro meses internada lutando contra um câncer agressivo. (FOTO: ODAIR LEAL/AGAZETA)

Andréia Alves, 22, estava na academia em março deste ano, quando sentiu o primeiro sinal da doença. Uma dor na coluna começou a incomodá-la. A jovem trabalhava como vendedora em uma loja de roupas. Nesse dia, ela não aguentou ficar até o final do expediente devido à forte dor nas costas.

“No meu horário de almoço eu nem quis sair, porque estava sem ânimo. Então resolvi me deitar. Ao levantar, não consegui mais ficar ereta. Já estava encurvada de tanta dor”, relata.

Andréia morava com os tios e os primos em Rio Branco, pois os pais estavam morando em Feijó. Ao chegar em casa, não encontrou ninguém. Ela dormiu ainda no meio do dia. Acordou já eram 21h, sentindo uma das maiores dores de toda a sua vida. “Tanto a coluna como o fígado já estavam latejando. Eu sabia que tinha alguma coisa errada e, por isso, liguei para a minha mãe”.

O tio a levou para o hospital. A primeira suspeita era de que Andréia poderia ter contraído uma bactéria chamada H Pylori, mas os exames logo descartaram tal possibilidade.

A mãe da jovem veio até Rio Branco para ajudar no tratamento dela. Como na Capital, o custo dos exames estava muito alto. As duas decidiram ir para Feijó, o que foi considerado um erro mais tarde. No hospital daquele município, Andréia piorou, além de ser muito mal atendida pela médica do local. O descaso da saúde do interior a obrigou a voltar para Rio Branco. “Eu pedi para a minha mãe me tirar dali, senão eu ia morrer”.

Andréia não teve tempo de matar a saudade de casa. Logo a dor a levou de volta ao hospital. Dessa vez, ela estava com a barriga muito inchada, dando a aparência de uma gravidez.

No sexto dia internada, sem nenhum progresso ou solução para o problema, a dor da jovem se intensificou. Havia muito líquido acumulado da barriga. Por este motivo, ela tomou uma decisão difícil, mas necessária. “Eram 2h da madrugada. Minha mãe não estava comigo. Então eu pedi aos enfermeiros que tirassem o líquido dali. A enfermeira não queria aceitar, mas viu o meu sofrimento. Nesse dia, tiraram dois litros de água de dentro de mim. Senti um alívio enorme. Todos achavam que eu estava com hepatite, mas os exames não mostraram nenhuma alteração”.

Posteriormente, Andréia conseguiu um leito no hospital Santa Juliana. Mas as queixas do atendimento continuaram. Lá, o médico ia até a paciente apenas uma vez por dia. Com o caso a cada dia se agravando, sugeriram uma solução: levá-la para o Hospital das Clínicas, antiga Fundação Hospitalar.

Andréia conta que no novo local ela se sentia bem atendida e muito segura dos médicos, que a visitavam com frequência.

Com tanta água fazendo o corpo e os órgãos dela incharem, Andréia precisou ser entubada. Além disso, outros problemas foram surgindo como a aparição de uma íngua e algumas alergias. “Eu não respirava mais sem ajuda de aparelhos”.

Os médicos de Andréia se reuniram para dar a notícia sobre qual era realmente o problema dela. Após inúmeros exames, finalmente a jovem ia descobrir o que estava deixando a sua saúde abalada.

Após dois meses de muitas dores, Andréia descobriu que tinha Linfoma de células T, um tipo de câncer muito parecido com a Leucemia, que também atinge o sangue. Existem vários tipos de linfomas e, segundo os médicos da jovem, essa é uma variante rara e agressiva.

A mesma doença atingiu o ator Reynaldo Gianecchini em 2009. O linfoma é resultado de uma mutação em uma célula do sistema linfático, ligado à defesa do organismo. Esta célula passa a se multiplicar de maneira descontrolada, formando tumores. Isso pode acontecer nos diferentes tipos de células encontradas no sistema, principalmente nas células B e células T.

Apenas a partir daí, Andréia direcionou o tratamento contra o câncer. Após quatro meses internada (de março até julho de 2015), a jovem teve melhoras e pôde voltar para casa. A cada 15 dias, ela faz quimioterapia.

Os cabelos dela caíram, mas o sorriso continua no rosto. Todos os dias, Andréia enfrenta uma corrida contra o tempo para salvar a própria vida. Ela espera que a quimioterapia a cure. Mas, caso isso não dê certo, será preciso um transplante de medula óssea, que tem baixa doação.

“Muitos estão à espera de uma medula. Mesmo que eu não consiga um doador e amanhã eu não esteja mais viva, quero fazer a minha parte. Se eu me curar, quero reservar um momento para visitar aquelas pessoas do hospital, para levar uma palavra de conforto e motivação”.

Esperançosa, Andréia afirma estar otimista com o tratamento. Apesar das dificuldades, ela tenta levar uma vida normal, com direito a passeios e reunião com os amigos. A dica para estar de pé até hoje, mesmo diante a tudo o que precisou passar, é simples: viver intensamente.

“A gente tem que fazer da nossa fraqueza a força. Antigamente, tudo o que eu mais queria era me formar em Direito, ter a minha casa, a minha família. Depois que tudo isso aconteceu, deixei de viver o futuro. Eu vivo o agora como se não existisse o amanhã. É tão bom acordar todos os dias, sorrir. A vida é tão rara. Temos que aproveitar ao máximo”.

 

Fotos: Odair Leal/ A GAZETA

 

 

 

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