Esta nossa abençoada juventude boêmia

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Plantaram no âmago daquela alma insana, e pouco ingênua, algumas sementes de arbusto parente destes que enverga, mas não quebra. Nasceram-lhe galhos descomunais, tais e quais os da castanheira bicentenária, única a não ceder para o rio que tudo arrasta, numa alusão a Brecht. Folhas e frutos passaram a render muito acima do esperado. Àquele ser a natureza houvera presenteado com uma guirlanda de folhas de jurema e tamarindeiro postada sobre a cabeça à guisa de enfeite próprio dos campeões de qualquer peleja. Um colosso!
Passou a navegar com grande facilidade pela vida afora. É que, aqui e ali, foi aprendendo a não criar problemas e a se defender dos que lhe surgiam, ou lhe eram colocados em meio ao caminho bem palmilhado com as botas do velho caudilho, ou com um sapato de seringa herdado dos ancestrais trabalhadores da mata. Para cada percalço da vida, sempre algo lhe serviu de lenitivo ou cura total, posto que os curandeiros da vizinhança estavam sempre a postos com os seus chás e unguentos de todas as qualidades e para os fins mais diversos possíveis.
Não teve infância nem adolescência, posto que filho de pobre desconhece estas trivialidades do pensamento de alguns estudiosos da alma humana. Aos dez janeiros, se fez negociante em coligação com a mãe. Aos catorze já prosperara. Ao lado da existência devotada ao trabalho estafante, vivia uma vida estudantil na qual passeava com um bando de crianças muito mais estudiosas e muito menos arteiras. Queria ser músico, mas, quando muito, apenas chegou a apitar muito bem uma corneta nos desfiles cívicos do colégio das irmãzinhas servas e santas.
Durou tão pouco esta fase, até porque se fez adulto um pouco depois do tempo de andar de fraldas ou da época de mijar na cama.
Da mesma forma que lhes sorriram algumas breves musas do seu e de outros tempos, assim também lhe sorriu o destino, só que este, sim, de boca escancarada de uma orelha à outra.
Antes, bem antes, viu uma violinista com nome de Flor e uma violonista batizada Olívia. Uma senhora muito bonita dedilhava divinamente ao piano, no grupo escolar, em saraus de verão. A música delas se fazia sublime a qualquer ouvido na cidade princesa. Habitara, já, a música a alma do poeta infante. No entanto, ele sempre teve certeza de que a flauta mágica dos anjos jamais seria brinquedo seu.
Em criança, ia à casa paterna um mulato pintor e tocador de média qualidade, que queria ensinar a alguém as artes do violão. O garotinho via o moço bater nas cordas e ficava extasiado. Depois, um menino boy  mostrava as notas musicais naquelas posições estranhas em que os nós dos dedos doem e incham. Em seguida, apareceram os conjuntos musicais tão apreciados pelos da cidade e pelos da capital.
No colégio, um dia, depois de ouvir uma cançoneta qualquer sob os acordes de um tocador cha-mado camaleão colorido, o menino houve por bem pedir que ele tocasse uma outra, do Renato & seus blue caps. O bom rapaz, uma espécie de multimídia da comunidade, foi incisivo:
– Pô! Isso aqui não é vitrola não, que tudo que tu quer ela toca…
Enfim, o garotinho percebeu surpreso que nenhum músico sabe tocar todas as músicas. Pudera!
Veio, então, a fase dos botecos da capital tristinha. Em um jirau  qualquer, havia música mecânica de boa qualidade e a conversa dos convivas era nivelada por cima. No outro bar jovem bacana, bem diferente, uns rapazes compunham um certo grupo capu, que operava maravilhas através de um jeito sui generis de fazer a galera dançar… Foram aqueles tempos de muita diversão e som de ótima qualidade. Por uns dez anos, a frequência e a rotatividade em finais de semana obrigavam-no a passar ou a ficar por ali, até que veio um bar com nome de avião de pau. Tudo, então, já se tornara bem moderno, inclusive, as viagens de jato pelo Brasil afora a partir do antigo aeroporto da cidade insossa.
O Ari não deu o ar da graça, no Café Nice, até porque os intensos dias dele já se houveram ido. Nem o Donga foi visto em Madureira, na Portela, posto já serem realidade os incríveis anos oitenta, quando ainda soavam ao longe os últimos acordes dedilhados por Vinícius de Moraes, em Ipanema, na esquina mais poética do Brasil. Também o Cartola já não morava no Catete e muito menos em Mangueira. Bom mesmo é que, no Beco das Garrafas e na Boca do Lixo, poetinhas de todos os matizes, de boa rima e ótima métrica, usavam muito bem a herança dei-xada por aqueles que já se haviam ido para outras doces tarefas em mundos um tanto mais leves e dis-tantes… Saravá!
1990. Rua Miguel Lemos, Copacabana, uma e pouco da manhã. Eis que um acreano cumprimenta João Ubaldo Ribeiro e se diz leitor seu e fã. Com um sorriso do lagarto de uma orelha a outra, o cronista bradou:
– Rapaziada!… Este moço é do Acre. A ele um brinde!
Foi aí que o rapazola, aos trinta e poucos, passou a fazer amizade com todos os garçons com quem trava conhecimento, seja em que boteco for por esta vida boêmia afora. É que eles vieram bebericar a derradeira, posto que a função já chegara ao fim, enfim. Já era segunda-feira…
Nasceram-lhe filhos, então. A boa música povoou-lhe ainda mais a alma. Hoje, um crioulo magro dedilha divinamente bem músicas belíssimas compostas pelo filho do Seu Sérgio Buarque. Um náua caboclo pequeno e talentoso passa de Tom Jobim a Zé Rico num piscar de olhos. Um roqueiro chega em apenas um passo e toca um roque misturado com baião. Bravos!
De tudo, ou antes de mais nada, à mente do poeta insano ainda sopra a poesia serena e meiga e suave e linda de Vinícius de Moraes. A partir de agora, lá no céu, também passarão a servir uísque e não apenas o vinho verde que não é de Portugal…
É pra você, poetinha, a balada seguinte!

INSENSÍVEIS

Vinha bela no seu balouçar de ancas largas.
A vila inteira em júbilo, em festa febril.
Depois, um susto, um derramar de pétalas…
Era médio ou pleno abril…
 
Pássaros, flores, lágrimas tardias, desilusões.
Rosas púrpuras, céu claro cor de anil.
Tempos ocres, cor de cobre, rendas rasgadas.
O amor enredara-se e caíra em ardil.
Moribundos tantos de amores que são hoje cinzas.
É assim a tenra vida, o destino vil…
 
Julgaste-me muito bem ou mais ou menos mal.
Arrefecimento fátuo, pouco discernimento.
O tempo urgente balançou a árvore infrutífera
Muito próprio do amor, parco desentendimento.
Um leve adeus em mágoas e descontentamento.
Não sabias das minhas intenções, do meu intento.
E não viste nem por um breve momento
Que se os teus instantes não tinham nenhum valor,
Não devias desperdiçar os meus, em nenhum momento…
 
Coube então a última lágrima, um triste adeus, por Deus!
O amor houvera por bem enredar-se e cair no ardil
Temos morrido a cada instante destes tristes dias…
É assim a tenra vida, a sina, a morte, o destino vil…
 
Em verdade, a poesia é que o leva a pensar assim. Afinal, ele não pariu o seu mundo com violência, mas rodeado dos carinhos das mais belas mulheres, desde a mãe que o acalentou e amamentou, a esta última sócia no árduo empreendimento que é fazer e bem educar crianças humildes, mas felizes. Benza Deus!

*Autor de O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, romance, de 2014, à venda nas livrarias Paim, Nobel e Dom Oscar Romero; e na DDD / Ufac.

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