Por Mássimo Lombardi: Padre Paolino, o missionário

Por Mássimo Lombardi*
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Por vocação, Pe. Paolino desde sua juventude sentiu-se chamado a ser missionário. E da Europa veio para embrenhar-se nas matas e levar a todos o Evangelho da vida. Seguir seus passos foi sempre difícil. Suas atividades constantes lhe faziam parar pouco. Toda sua vida foi dedicada a “seu povo”, o povo acreano, nas paróquias de Brasileia, Boca do Acre, e principalmente Sena Madureira. Ele era famoso em todos os seringais. Profeta das selvas, seringueiro de Deus. Frágil, mas de uma força de espírito impressionante. Com ele se tinha a experiência do que significava uma vida que jorra de dentro e que revitalizava o corpo fraco. Apanhou 85 malárias durante sua vida missionária. Era como um tronco, todo inteiro, sem nenhuma dobra. Denunciava as injustiças que amargavam a vida na selva.

Nas suas viagens constantes pelos rios Purus, Iaco, Caeté, Macauã e outros, dava a todos o conforto espiritual e o material. Além dos sacramentos que administrava com total dedicação e espírito missionário, seus remédios caseiros, suas receitas, suas orientações, seus cuidados, salvaram muitas vidas e deram vida em abundância para muitos que a tinham diminuído. Era a vida total e em plenitude que trouxe o Pe. Paolino para essas matas. Foi sempre muito grande a preocupação do Padre Paolino em levar para aquele povo, que morava tão longe na floresta, algumas noções que nós diríamos de “saber”, ou seja, dar a possibilidade de ter uma escola e uma pessoa para lecionar. Os muitos benfeitores e amigos do Padre Paolino colaboraram nisso.

Ao longo dos rios ou no coração dos seringais, foram construídas escolas-igrejas. Esses ambientes serviam de escola, para dar as primeiras noções de leitura e de “contas”, como também serviam para encontros religiosos, na visita do padre e na medida do possível, semanalmente para a “reza” onde havia pessoas que sabiam ler a Palavra de Deus, rezavam o terço e outras orações.  Essa preocupação com a educação do povo, procurando tirar ele do analfabetismo total, lhe fez montar as escolas junto aos rios, nas Comunidades de Base.

O missionário magrinho e seu digno escudeiro “Macaúba”, excelente carpinteiro, que sempre o acompanhava, e com o apoio da população, construíram quarenta e duas escolas. No começo, o professor era o menos analfabeto; depois devagarinho, veio de longe a professorinha com ao menos o quarto ano primário cursado. Quantos milhares de seringueiros passaram por essas escolinhas! Pe. Paolino contava que quando mandou fazer uma escola num seringal, o seringalista disse para ele: “Não quero que meus seringueiros saibam ler, porque é bom que o seringueiro não saiba ler”. Qual é o motivo?. É claro, se soubesse ler, veria as roubalheiras nas notas dadas por ele. Daí as dificuldades que encontrava o Pe. Paolino para fazer escolas nos seringais.

Como São Paulo outrora, enviava suas cartas com instruções e com palavras de animação aos monitores ou às professoras. Dizia que as escolas funcionavam como um telefone: quando as crianças não iam à escola, já sabia: os pais foram expulsos de suas terras por algum sulista; a escola denunciava as injustiças. Ademais, os alunos ao aprender a ler, aprendiam também a pronunciar o mundo como negação de suas vidas e das de seus pais.

Em Boca do Acre começou a trabalhar ao lado do Pe. José Carneiro de Lima, que havia estudado medicina. Este era um sonho acalentado por Pe. Paolino, que por força da inexistência de faculdades na região, passou a dedicar parte de seu tempo a estudar por conta própria, fazendo com que a religião e a medicina fossem, em seu coração, uma só coisa.  E até às margens dos rios Caeté, Macauã, Iaco, Purus, Acre… levava a mais bela receita que um médico pode dar: a receita do amor, da fé do aprendizado com a história, com os exemplos e com os homens.  “Com sua experiência de mais de 40 anos, conhece de longe as doenças tropicais. Reconhece a enfermidade de uma pessoa só em olhar nos olhos e na boca”. Com seu livrinho de medicina natural “Medicina da floresta-Fonte de vida”, dava 150 receitas naturais com recursos existentes na flroesta, e das quais não abria mão no seu trabalho de curar todo tipo de doença.

Pe. Paolino foi sempre um defensor ardente da preservação da floresta amazônica, incansável em suas denúncias sobre a exploração ilegal da madeira. “Ele exibe língua afiada contra o manejo florestal madeireiro e contra discursos ambientalistas que não encontram eco na floresta”. Como movido por um divino entusiasmo, encorajou, ensinou, acompanhou, abençoou, solidarizando-se com o povo e com os rios, com os seringueiros e com as árvores. Tanto mais e mais se destruía a selva, os seringais, os varadouros, tanto mais e mais Pe. Paolino levantava a voz em defesa da vida da selva e do seu povo. No encerramento de um treinamento dos monitores do interior, Pe. Paolino pronunciou estas palavras, dignas de reflexão: “Em todos os tempos, Deus suscita formas para que os cristãos vivam autenticamente sua fé. E eu estou convencido de que os Grupos de Evangelização são hoje, uma forma suscitada por Deus. Coragem monitores!. A estrada é dura e torta, mas estamos a caminho do Senhor…!”.

“Cerca da metade da vida de Pe. Paolino no Acre foi passada visitando índios e seringueiros e, depois de um dia pesado atendendo as confissões, preparando o povo aos sacramentos, batizando e casando, à noite cansadíssimo se recolhia num defumador, dormindo na paz de Deus, no silêncio total e na paz, ao sabor da fantástica Amazônia” (Frei Heitor Turrini) Para os atuais e futuros médicos, Pe. Paolino ofereceu uma lição de humildade e sabedoria: “Amem os doentes, sejam misericordiosos com os doentes. A felicidade de um médico é poder atender uma pessoa pobre. A grande recompensa de um médico é a satisfação de ter atendido seu semelhante”.

Sua chegada nos seringais sempre era esperada com ansiedade e muita esperança. Nem sempre eram coisas bonitas e agradáveis que o esperavam. “Ao término de um dia muito duro, chegamos ao seringal São Sebastião. O sol calava atrás do verde da floresta e chegava até as águas do rio da cor de ouro. O cansaço dominou o prazer poético. Sentia um grande desejo de repousar. Pensava: Logo ao chegar a São Sebastião, amarro a rede e durmo. Dormir! Somente um desejo. Logo, ao chegar, sou chamado para visitar um menino que engoliu soda caústica. Uma cena tão piedosa, que apesar do esforço não consigo dormir. A soda caústica tinha corroído o estômago. Gritos contínuos. Sentia fome, sede. Queria água, mas não podia engolir. A mãe queria de mim o impossível. Nada podia fazer. A única esperança levá-lo para o hospital. Como? Não havia meios. Uma viagem normal exigia uma semana de tempo. O coração ficou apertado, quando tive que dizer à mãe: ‘Não posso fazer nada’. A dor, às vezes até a morte, no meio de grandes tormentos, dos pequenos inocentes, sem nenhuma maldade, é um mistério que somente Deus sabe. Rezei por ele e pela mãe. Poucos dias depois o menino morreu. Soube da notícia através de pessoas que vieram de São Sebastião”.

Sua visita sempre deixava algum tipo de ensinamento, alguma alegria, algum conforto espiritual ou material. “Na visita ao seringal Penedo, quando o padre chegou não encontrou quase ninguém, ficou contente, porque ele teria assim a possibilidade de repousar. Deixou ‘livre’ o cavalo, mas a tranqüilidade acabou em seguida, quando as pessoas começaram a chegar. O padre não podia deixar passar esse tempo e aproveitou para dar uma aula de catequese, falando da Criação, Redenção e Igreja. Insistia falando com entusiasmo do nascimento de Jesus, etc… Querendo ver se os ouvintes tinham entendido, fez uma pergunta: ‘Chico, escuta, quando nasceu Jesus?’ A resposta franca: “Sexta feira santa”; a mesma pergunta dirigida a um segundo, e a resposta: ‘Sábado santo’. Nessa altura o padre entendeu que não tinham entendido nada… Mas é assim mesmo, não se pode perder a paciência e a esperança”. “Seringueiro não tem vez. Pe. Paolino lembra a cada um de nós esta verdade sempre velha. As injustiças sociais continuam a ser o pão amassado para o pobre seringueiro comer ainda nos dias de hoje. O caso dos paulistas é apenas um sintoma dessa chaga idosa dos seringais acreanos”.

Suas esperanças em melhorar a saúde e a vida do povo foram sua marca toda sua vida. Suas lutas sempre foram encaminhadas nesse sentido. Várias cartas a Dom Giocondo, deixavam ver sua alegria pelo achado de um médico para Sena: “A melhor notícia é que vou resolver o problema médico com um casal de médicos que moram em Esperança, no alto Purus, do lado do Peru. São dois médicos missionários, portanto a disposição absoluta do Bispo, de vida espiritual extraordinária. O médico, no mês de novembro, esteve aqui e impressionou-me grandemente e foi então que sonhei viesse trabalhar em Sena, onde o campo era imenso e não só em Sena, mas muito mais nos seringais onde iremos, se Deus quiser, fazer a desobriga juntos. A senhora do médico também é médica, especialista em doenças de criança e laboratorista. Juntos, com as enfermeiras, poderão fazer funcionar o hospital, que já foi o teu sonho, mas que agora será uma bonita realidade. Os dois já foram contratados pelo Governo, e o Prefeito ficou infinitamente satisfeito”.

E depois a desilusão porque as coisas não resultaram como ele esperava, em prejuízo do povo: “Quanto ao médico tudo ia bem, mas esta Sena, cheia de politicagem, levantou uma onda terrível contra ele, e o pobre que tão bem se dava conosco, é capaz de deixar a cidade dum momento para outro. Ele é bom amigo e bom rapaz. Espero que queira ficar. O que ele fez e levantou a onda foi de cobrar consulta particular. No posto de saúde nada cobrava, mas em consultório particular cobrava e por causa disto a onda levantou-se contra ele e estou com muita pena. Um pobre médico aqui neste fim de mundo sozinho, hostilizado… Já compreendeste, que situação não pode ser esta???, mas será como Deus quiser. Espero não desanime. Estava muito animado para abrir o hospital, mas deste jeito não vou ter esperança. Estaremos novamente no começo”. Pe. Paolino acostumava sempre dizer: “As minhas férias são a desobriga dos rios Iaco, Purus, Caeté e Macauã, completamente abandonados e vitimados pelos protestantes”.

Mas a vida pelo interior dos rios não era fácil em tempos passados. As circunstâncias adversas para quem veio de longe, as carências de saúde e de educação do povo, os desafios pastorias constantes, a incomunicação, o isolamento… “À tardezinha regressamos. É cansativo viajar pelas águas sujas com o ruído ensordecedor do motor. Admiro os missionários que tudo sacrificam em amor a esta vida sem glória e cheia de heroísmos. A troco de que? Só uma perspectiva de eternidade pode iluminar esta descida aos infernos”.

Toda uma vida dedicada aos outros, doada pelo amor ao irmão.

Pe. Paolino recebeu muitos prêmios, nacionais e internacionais, em reconhecimento do seu trabalho. Ele sempre os recebeu, na sua humildade, por ser tudo em favor dos mais pobres. Entre outros, “O Pe. Paolino, no mês de janeiro, recebeu na cidade de Rieti, na Itália, um prêmio internacional: “Civiltá dell´Amore” e uma estatua de São Francisco, padroeiro da ecologia. Esta estatua é para dizer ou significar o quanto o Pe. Paolino trabalha em defesa da floresta. Padre Paolino continua na Itália, encontrando-se com  autoridades e conscientizando a respeito da necessidade da preservação do meio ambiente. Certa vez, ao receber um prêmio, disse: “Este título não é meu, é dos pobres”.

“Quem entrou na vida do povo lascado, viu sua miséria, sua ânsia de Deus, não pode mais abandoná-lo, mesmo que quisesse. Os laços da compaixão são mais fortes do que a busca do próprio caminho. Agora entendo plenamente a frase de Cristo: se alguém não morre como a semente, não viverá; para ganhar a vida, terá que perdê-la. Entendo a decisão de Frei Paolino de viver e morrer com os seringueiros, de encher-se de ira santa por causa deles, de ser ameaçado de morte, de querer se acabar por eles”.

* Mássimo Lombardi é padre e reitor da Catedral Nossa Senhora de Nazaré, em Rio Branco.

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