Não me enganam

No último domingo, enquanto o Brasil tomava um rumo importantíssimo em sua história, busquei ficar perto das pes-soas que eu amo. Revi fotografias antigas, interagi com meus irmãos e assisti com meus pais parte da votação que decidia sobre a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.
Minha família é bem dividida sobre a questão do impeachment. Ninguém é “maria vai com as outras”. Todo mundo pensa e tem suas próprias opiniões. Contudo, expomos isso sempre com muito respeito. Respeito esse que não vimos na Câmara dos Deputados naquele dia.
Foi constrangedor, vexatório o comportamento de alguns parlamentares antes de se iniciar a votação. Mas disso todo mundo já sabe. Muita gente, assim como eu, acompanhou a situação pela TV. A cena ganhou de qualquer roteiro de seriado americano sobre política. Não imaginei viver para ver isso.
Teve de tudo. Teve bate boca, empurra-empurra, cuspida, xin-gamentos, despreparo, deputada citando o marido prefeito como exemplo (que no dia seguinte foi preso por corrupção). Pasmem, teve deputado que homenageou um torturador da ditadura militar, além de parabenizar Eduardo Cunha, mais complicado do que tudo nessa situação toda. Sim, Jair Bolso-naro reafirmou para o Brasil, ao vivo, para que veio à política. Pior, tem quem compactue com isso. Tenho medo…
Não para por aí. Além das caras e bocas de Cunha, que enfrenta uma série de acusações relacionadas ao esquema de corrupção investigado pela Operação Lava Jato, ainda tivemos que vê-lo presidindo o processo de impeachment. Apesar disso, não vi indignação geral das pessoas por conta desse fato.
É muito, muito bonito ver que o brasileiro está indo às ruas manifestar suas indignações e direitos, seja qual for seu lado partidário. É inspirador assistir o povo mostrar que está de olho e que corruptos não passarão.
Mas, do vera, em geral sinto que esse anseio por mudança está incompleto. É como se para conseguirem um Brasil como querem, apenas castigam um determinado grupo político. Os outros, tão suspeitos como tais, podem ficar livres.
Justificar os fins pelos meios, é isso o que me assusta. Não há coerência nesse ódio. O sangue nos olhos não pode cegar. Devemos sim questionar e manifestar o que queremos, mas sem nos deixar ser persuadidos por lobos vestidos de cordeiro. Esses não me enganam.

* Brenna Amâncio é jornalista.
E-mail: [email protected]

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