Essa moça

Conhecemo-nos há muito tempo. Adorávamos brincar juntas quando pequenas. Podíamos ouvir o que diziam as roseiras do jardim de casa. E responder. Também aprendemos a subir na goiabeira do quintal da Vovó. E ficávamos encantadas em descobrir a lua de dia. Ótimas companheiras que éramos.

Depois, fomos nos estranhando. Na adolescência, comecei a considerá-la inconveniente. Desajeitada demais. Não era alguém que merecesse o meu apreço. Não era alguém com quem eu quisesse ser confundida.

Ela percebeu e foi ficando magoada, cada vez mais sem jeito, retraída. Distanciamo-nos muito, e procurei esquecê-la, elegendo novas amigas. Quando eventualmente esbarrava nela, eu desviava o olhar.

Ficamos anos sem nos encontrar. Mas, às vezes, sonhava com ela. E não entendia por quê. Foi o tempo, tão valioso, que me deu a chance de reconsiderar. Seguindo conselho desse senhor, resolvi buscá-la de novo, pois senti que tínhamos algo a resgatar.

Ela, tocada, me estendeu a mão. E, lenta, atentamente, vamos reatando nossos laços, revivendo o rico afeto que nos une.

Ao enxergá-la com novos olhos, vejo que essa moça me toca o coração, assim contraditória como é. Tem uma melancolia, uma saudade não-sei-de-quê… Mas é divertida quando faz piada de si – e dos outros também. Afinal, com nossos dramalhões, apegos e imaturidades, somos mesmo engraçados!

Cada vez mais, tem vontade de rir, brincar, cantar e dançar. Sabe que desse jeito espanta as sombras. Já convivi tanto com ela, e me pergunto quem é. Será que um dia acabo de descobrir? Acho que não. Com surpresas maravilhosas, a vida a reinventa. E não é que está ganhando minha simpatia de novo? Quero-a bem perto.

Deparei com essa moça, hoje, ao espelho, e ela sorriu pra mim.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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