A estrada não virá tão cedo, mas até lá renderá muitos votos

Semana passada o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (Democratas) esteve visitando o Acre e informou que o Ministério da Infraestrutura vai liberar cerca de R$ 7 milhões para a realização dos estudos de viabilidade econômica e ambiental para a “futura” construção de uma rodovia ligando Cruzeiro do Sul, no Brasil, a Pucallpa, no Peru.

Quem leu os jornais e os sites de notícias locais ficou mesmo acreditando que esse dinheiro está garantido. Uma nota indicando que Alcolumbre teve que telefonar para o relator do orçamento geral da União de 2020, deputado federal Domingos Neto (PSD-CE), pedindo a inclusão dos tais R$ 7 milhões deixa claro que a liberação desse recurso em 2020 é, por hora, apenas uma ilusão.

As “estórias” sobre a construção dessa estrada são antigas.

Dez anos atrás uma comitiva acreana de peso foi ao Peru “vender” a ideia desta estrada. Era integrada por 22 deputados estaduais, dois federais, cinco prefeitos, os presidentes das associações comerciais de vários municípios, o presidente da Federação das Associações Comerciais, o vice-governador César Messias e os secretários de Esportes e Turismo e de Ciência e Tecnologia.

Na época o Acre e o Brasil eram governados por um só partido (PT) – que em tese facilitaria a liberação dos recursos. E mesmo com toda a empolgação dos políticos de então, que inundaram os jornais impressos e sites online com notícias sobre a construção da rodovia, nada aconteceu.

Interessante que os argumentos em favor da construção da estrada são os de sempre. Desde aquela época. E nenhum deles tem um embasamento econômico forte. Muito pelo contrário, como mostrarei mais abaixo.

O calcanhar de Aquiles para a concretização dessa rodovia é a questão ecológica, pois seu trajeto deverá cruzar o Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD), exatamente em sua região reconhecida como uma das mais biodiversas do planeta (as cercanias da Serra do Divisor).

Frente a isso, qual o argumento que os políticos que estão por trás dessa iniciativa irão utilizar para vencer essa barreira? Vão mudar o status daquela Unidade de Conservação só para poder passar com a estrada? Vão até mesmo a extinguir se for necessário?

Se movimentos nesse sentido forem dados, a reação da comunidade ambientalista nacional e internacional deverá ser intensa. E, considerando – como se diz em acreanês – que a “moral” internacional do atual governo federal na seara ambiental é inexpressiva, insistir na construção da estrada atravessando o PNSD certamente trará dissabores e desgastes imensos para o país.

O risco de o Brasil virar, mais uma vez – a exemplo do que ocorreu com as recentes queimadas na Amazônia – um vilão ambiental internacional serão grandes e tenho quase certeza que por essa razão o atual governo federal se verá compelido a “empurrar com a barriga” a liberação de recursos para a construção da rodovia.

Um dos principais argumentos dos defensores da estrada é a integração do Brasil com o Peru. É mesmo? Será que eles fingem que isso não existe? Todos sabem que a estrada Interoceânica que passa por Assis Brasil integra por via terrestre os dois países há mais de dez anos.

E a história do fracasso da integração via Interoceânica jogará pesado contra as pretensões dos que querem fazer “mais uma” integração com o mesmo país pelo vale do Juruá.

Depois de tantos anos de inaugurada, pouco se exporta e importa do Brasil para o Peru e outros mercados do Pacífico pela Interoceânica. De concreto temos um forte movimento de turistas brasileiros visitando o Peru. Seria exagero afirmar que a Interoceânica só serve para isso?

Quem discordar, favor responder essa simples questão: – Por quais razões exportadores iriam adquirir grãos (milho e soja) em Rondônia e Mato Grosso e enviar os mesmos para China pelo Porto de Ilo no Peru, percorrendo de caminhão entre 2.700 a 3.400 km de estrada desde Vilhena (RO) e Sorriso (MT)?

Não sabe a resposta? É que é muito mais barato embarcar essa mesma carga em navios em Porto Velho, economizando 1.000-2.000 km em frete caso optassem pela rota da Interoceânica. E não se iludam. Parece irônico falar isso hoje, mas se no futuro o Acre vier a ter produção exportável de grãos, certamente ela seria enviada via Porto Velho e não o Peru.

Agora imaginem uma estrada entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa. Vão exportar e importar que produtos? A região de Cruzeiro do Sul tem um potencial consumidor muito pequeno para ser atrativo aos exportadores peruanos. Na outra mão, a produção industrial e agrícola – com exceção da farinha, um produto com mercado só no Brasil – é inexpressiva. Nem para turismo a estrada vai servir, pois as atrações no Peru estão do outro lado dos Andes.

Outro aspecto que pesa contra a ligação Cruzeiro do Sul-Pucallpa é a falta de força política do Acre. Imaginem um lobby de políticos dos estados do Centro Oeste para a construção/melhoria de rodovias ou ferrovias para integrar aquela região com portos peruanos no pacífico frente ao lobby de políticos acreanos por uma rodovia entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa. É óbvio que as chances da estrada acreana prevalecer serão mínimas.

Não podemos esquecer também as dificuldades orçamentárias do governo federal – que em tese deverá bancar a construção da estrada. Sem a ajuda do BNDES (demonizado pelo atual governo e seus seguidores nas redes sociais) para financiar a construção da rodovia, existe o risco de, quando muito, se conseguir dinheiro para construir a estrada até a fronteira do Peru. Temos que saber se o Peru se arriscaria em construir a estrada no seu lado, sofrendo pressões de ambientalistas e tendo que se endividar para fazer uma obra que pouco acrescentará à economia da região beneficiada.

No âmbito estadual, a insistência com a construção da rodovia Cruzeiro do Sul-Pucallpa custará caro e possivelmente colocará uma pá de cal nas doações que o governo tem recebido da Alemanha e da Inglaterra para investimentos em programas ambientais.

Vejam que elas minguarão a partir de 2020 pelo aumento exagerado do desmatamento no Acre em 2019. Por isso, apoiar a construção de uma estrada em área tão sensível ecologicamente certamente fechará de uma vez por todas as perspectivas de arranjar novos doadores para substituir os atuais.

Por isso, está claro que a construção da estrada Cruzeiro do Sul-Pucallpa não vai sair assim tão facilmente e de forma rápida. Mas as promessas de um suposto progresso que ela poderá trazer seguramente irão render muitos votos, durante muitos anos, àqueles que estão à frente da ideia.

 

*EVANDRO FERREIRA

Assuntos desta notícia