ARTIGO: “É necessário”

As medidas mais impopulares são tratadas pelo governo como “necessárias”. Tanto a nível federal, quanto estadual, este foi o discurso mais utilizado por gestores para tentar justificar a aprovação da polêmica reforma da Previdência. “É necessário, se não o Estado quebra”.

E não para por aí: vai reajustar o preço da gasolina e demais combustíveis nas refinarias, a tarifa da energia elétrica, o valor da carne, do gás de cozinha? É necessário? É tudo necessário?

A meu ver, esse discurso não cola. Não sustenta argumentos.

Você já parou para pensar, leitor, o ponto de vista da necessidade. É muito fácil falar que uma coisa “é necessária” de ser executada, quando esta não lhe prejudica, quando são os outros que terão que pagar pelo ônus da sua decisão. Enquanto as pessoas perdem dinheiro, poder aquisitivo, condições dignas de vida e são tolhidas em seus direitos, só o que o Estado sacrifica é sua popularidade. Mas os cofres públicos bamburram, amparados pela alta carga tributária brasileira (35% do PIB, ou seja, de toda a riqueza do país, mais de um terço são tributos).

Aí eu pergunto: quem não arriscaria a sua “popularidade”, em troca de ser mais rico?

O Brasil criou, ainda, um sistema conivente com a política do “é necessário”. Quando uma decisão tão difícil como essas de reajustes ou reformas são tomadas, é a Administração Pública que assume o papel de vilão. As pessoas que batem o martelo são apenas meras ocupantes dos cargos públicos. Figuras ocultas. Só os da frente pegam o ranço popular, e esses são bem treinados, calibrados já na arte de discursar sobre o que “foi necessário”.

O que não falam é que ao Estado são impostos deveres constitucionais, como qualidade de vida, a dignidade da pessoa humana, boa educação, serviços de saúde eficientes, alimentação mínima, habitação, transporte, saneamento básico, favorecer atividades econômicas, o lazer. Essas coisas, sim, são necessárias. Mas pare e pense se a realidade indica que o Estado está fazendo um bom trabalho na garantia dessas coisas. Seriam elas, então, menos necessárias?

Uma coisa que aprendi sobre reformas é que elas sempre vêm para melhorar as coisas para o lado da Administração Pública, só que às custas do cidadão. Portanto, toda vez que eu escuto a palavra “reforma” em alguma coisa – trabalhista, tributária, administrativa, etc – a única coisa que me vem à mente é “vish, eles querem mais. Vou ter que perder mais alguma coisa”!

Portanto, só dizer que não dá para administrar, que o Estado vai quebrar se não aprovar isso ou aquilo não é o bastante. Na verdade, escancara a incompetência. Se a situação tá apertada, é culpa de quem está lá, à frente, administrando a máquina pública. Eles é que não tomaram as devidas medidas de austeridade, e agora querem que você, cidadão, pague a conta. Eles é quem abram mão de seus supersalários, de suas regalias e penduricalhos. Não é a população, em geral, que tem que pagar o preço pela situação financeira do Estado. Não é nesse Brasil que eu acredito. Não é por esse Brasil que eu pago meus impostos.

 

TIAGO MARTINELLO

 

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