Violência vs Números

TIAGO MARTINELLO

Está mais do que batida essa fórmula que o poder público utiliza para mensurar a Segurança Pública. Fazem uso das ocorrências de crimes contra a vida para traçar comparativos e dizer que suas operações, táticas ou esquemas estão dando certo. O número de homicídios se torna quase que um tipo de indicador “endeusado”, como se nada mais importasse.

Isso é balela. Não caia nessa!

E não falo aqui de partido A, B ou Z. Não é o vermelho, nem o azul. Quase todos insistem nisso, e se negam a ver o quão contraproducente são tais avaliações. Números são fáceis, muito fáceis de serem maquiados. Retratam uma realidade tão unicamente próxima do desejo de quem produziu as estatísticas.

Veja bem, se quero dizer que algo é assustador, é só pegar um recorte de quando os números eram os menores possíveis e confrontar com meu cenário atual. Se a meta é amenizar as coisas, basta colacionar frente a dados ainda piores do que os atuais. O resultado são porcentagens. E, lógico, alguma delas vai parecer fiel ao objetivo de quem as está divulgado.

Dizer que a questão da criminalidade está contida, que a paz está voltando ao Acre, com base nessas porcentagens cada vez mais específicas (mês passado, mesmo mês no ano passado, o mês tal do ano tal) não é parâmetro para medir a realidade da violência no nosso Estado. Isso é só construção de discurso político. Nada mais. É tentar implantar uma falsa sensação de segurança que já não nos pertence mais há muito tempo.

É só sair às ruas é ver que as coisas estão fora de controle. As pessoas não se sentem seguras. Enfrentamos um verdadeiro Estado paralelo. Locais já não podem mais ser frequentados, há toques de recolher, bairros dominados, disputas de territórios, leis do silêncio.

A impressão que se tem aqui é que passaram a maior parte de 2019 olhando, orgulhosos, para reduções no número de homicídios em relação ao ano anterior e, pronto, voilà! Como se num passe de mágica, não existisse mais facções, mortes, crime organizado, alta circulação de drogas e ocorrências ultrajantes de roubos de carro e em geral.

Eu me pergunto é se, vendo esse janeiro de 2020 do jeito que está, 22 assassinatos em apenas 17 dias, uma morte a cada 18 horas, como é que os gestores avaliam nosso status agora? Vale mais o “tudo sob controle” de 2019 ou o caos de janeiro de 2020? O que é mais real?

A verdade é que isso é irrelevante. Pouco importa. Números são só números. Lutar contra o crime é o que importa, sem parar, sem descansar, sem demorar para chamar novos agentes da segurança pública. Nossas linhas de operação parecem seguir pontuais, enquanto deveriam ser permanentes e intensificadas. A aproximação dos demais poderes deveria ser incessante.

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