ARTIGO: Atentos e inteiros

“A sensação que tenho é a de que esse ano ainda não começou, sabia? Por Deus. E olha, já trabalhei um tanto, desde a primeira semana de janeiro, mas as coisas têm me parecido lentas ainda. Como se houvesse algo a ser resolvido até o carnaval, todo um país em busca de alguma clareza que promete se apresentar pontualmente em março. Todo ano é assim?”

Rapaz, eu acho que não. A analisanda que fez essa observação instalou em mim uma dúvida. Somos nós – eu, ela e talvez até você – que ainda não engatamos 2020 acreditando no ‘o ano no Brasil só começa depois do carnaval’, ou é a vida que anda morosa?

Foi portando essa coceirinha em forma de questionamento, que teimava em aparecer aqui e ali durante a última semana, que li a coluna do Christian Dunker sobre alguns dos filmes do Oscar. Parasita, Democracia em Vertigem, História do um casamento e Dois Papas foram costurados por ele a partir do mal-estar – leiam!. Sempre preciso o Dunker.

Em um trecho do texto, sobre Parasita – assistam! – Dunker diz: “É deste curto-circuito entre os conflitos entre mundos e intra-mundos, que emerge a violência. É ele que torna a pedra do prosperidade, que representa a cultura  como meio de tratamento de conflitos, o mais simples e brutal instrumento de vingança imediata. Por isso ela é sentida pelos envolvidos como irracional, ininteligível e disruptiva. Por isso que ela é pressentida pelo cheiro. O cheiro da diferença que impregna as pessoas e denuncia, ainda que na penumbra e de forma indeterminada que a verdade está em outro lugar. Por isso se diz que algo cheira mal, como signo do mal-estar, que ainda não chegou a ser nomeado….”

Isso! O cheiro não é de morosidade, é de mal-estar. O mal-estar do que ainda não se sabe completo, mas já se sabe indesejado. E para esse não tem carnaval que traga respostas. Embora o que se busque em um carnaval se pareça pouco com  ‘as respostas’. O que a gente quer é alívio, descarrego, uma certa alopração, como diria a minha irmã – amo todas as palavras da minha irmã – um cantar alto, dançar e enfeitar-se que será mais do que bem vindo esse ano.

Que a gente se deixe enganar pelos cheiros do fim de fevereiro, – mas somente até o fim de fevereiro – que a gente se prepare para um ano que pode sim ser de mal-estar, mas pode também ser de início de transformação. Sem fantasia. E com ela também. Vamos como for possível, desde que atentos e inteiros. Boa semana queridos.

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