Achatados

 ROBERTA D’ALBUQUERQUE (*)

Estacolunaseráentregue com seis horas de atrasoemrazão da minhadistração total e absoluta. Aproveitoessasprimeiraslinhas para pedirdesculpaspúblicas à santa alma que a editatodas as semanas. Agradeçotambém a paciência e compreensãopelasminhasmuitasoutrasdistrações e atrasosdesde que ‘tudoissocomeçou’ – expressão que aponta entre as maisusadaspormim, nasúltimassemanas, em um empateapertadíssimo com o ‘quandotudoissopassar’.

A distração é culpa (risosnervosos) da fala de Teresa Pinheiro e Daniela Romãoem um encontroorganizadopeloGrupobrasileiro de pesquisasSándorFerenczi do qualfaço parte, que, só para ilustrar a confusãoem que me encontro, se deu no sábado. Perditambémpordistração total e absoluta. Minhasorte é que oencontroficougravado no YouTube e podeservistoporquenãoestava online no horário original.Se puderemassistam.

Teresa falava do achatamento do futuro que estamosvivendo agora durante a pandemia. E me aliviou a lembrança de que esteembaralhar dos dias é de todosnós. O futuroandadifícil de imaginar. Estamosdiante de um grande ‘nãoseiquando’, ‘nãoseicomo’, e o pior ‘nãosei se’ coletivo.Tenhoobservado que esseachatamento do futurotrazconsigo um relembrar o passadointenso e quase doloroso.

Para ficar no exemplo simples, aquiem casa, as meninasressuscitaram um videogame antigo que jánão era usadohá tempos.Ficou de lado, maisprecisamente, quandotrocamos a TV porumadessas HD. Demoramosmuito para fazer a troca.Houve um tempoem que as amigas das criançasviam a nossa TV de tuboquasecomoumaatração de museu. Olha que profunda, que engraçada.Desde a mudança, a qualidade da imagens do jogoconseguiuficarestranhamentepior, e elas que jánão se interessavamtantomaispelobrinquedo, o encostaram de vez.

Aí, ‘tudoissocomeçou’, e junto com as histórias da infância, osvídeos dos bebês que foram um dia e que tem se repetidoaosmontesnoscelulares da casa e as mantinhas que jánãousávamosmaisháalgunsinvernos, o videogame voltou.Ocorre que osolhosjáacostumados a umavidaemaltaresolução se incomodaram com os pixels a mais, ou a meno,s e começou a corrida porconsertaressenegócio. Elascomeçarampedindosocorroaopai, apelaram para a minhaajuda e, diante do insucesso de ambos, se puseram a trabalhar. Foimuitaleitura de manual no google, vídeostécnicos no youtube e todasorte de tentativa, até que a Larinhadecretou: somosmaiores que essepedaço de plásticocheios de chips e vamosdarconta de conectarqualquercoisa que deveestardesconectada. Tratava-se de um cabo – um dos tantos que testaram – empoeiradoemuma das muitasgavetasapertas e catucadas à exaustão. Um par de horas depois e minhaLarinhatinhatrazido de volta o futuro do pretérito para dentroda sala. Essa menina tem muitascoisaslindas, mas não se dobrar para as dificuldades é uma das que maisadmironela. Lalá, o futuroestámesmoachatado, mas comodisse Teresa, emsuafalainspiradoracitandoKrenakemIdeias para adiar o fim do mundo, quando o céuestivermuitoperto de encostarnanossacabeça, a genteempurraele de volta para cima, nem que seja com um golpe virtual de videogame. Boa semana,queridos!

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(*)Roberta D’Albuquerque é psicanalista, autora de Quem manda aqui sou eu – Verdades inconfessáveis sobre a maternidade e criadora do portal A Verdade é Que…

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