ARTIGO – Perdemos um guerreiro!

Abrahim Farhat, ou simplesmente o “Lhé”. É triste ter que noticiar a morte de uma pessoa como ele. Muito triste. Atinge uma parte que existe em cada um de nós de que somos capazes de resistir e lutar por dias melhores. Quase que como um golpe que macula aquele tino, aquele brio que reservamos em nosso ser de inquietude, de que há coisas muito erradas com esse mundo e não podemos ficar parados, sem fazer nada diante disso.

Lhé era daqueles tipos de pessoas que são únicas, peça autêntica e singular. Quem o conheceu sabe bem disso. Nem precisava ser próximo ou partilhar de suas muitas causas ou fortes opiniões. Poucas horas de convivência bastavam para ser contagiado por seu alto astral, seu entusiasmo e sua paixão pela vida.

É exatamente esta imagem que eu tenho dele, um homem de fortes ideais, suplicando sempre por um bom debate e mais uma causa justa para incorporar à sua vida. Aquele tipo de pessoa engajada no lado bom e nobre da política, não se deixando contaminar pela parte podre.

Eu o enxergo muito na parábola bíblica de Davi e Golias. Lhé foi um eterno Davi, sempre o menor, o mais fraco, travando uma luta corajosa e aguerrida com apenas algumas pedrinhas na mão contra um gigante, mesmo que as suas chances de vitória fossem improváveis. Lhé era este guerreiro do improvável. E mesmo quando vencia, quando obtinha êxito, ele partia para o próximo round, o próximo Golias a ser enfrentado, sempre pelos menores, pelos mais fracos.

Não vou mentir: Lhé era aquele famoso “chato da Redação”. Quem é jornalista sabe bem do que se trata. Aquela figura que liga sempre, parece que adivinhando a hora em que você está mais aperriado, mais atarefado, para começar a falar, e falar muito. Você atendia ansioso por uma boa pauta e acabava com uma grande lição de história. E que apaixonado ele era pela história do nosso Acre! Sabia de cada data memorável, tantas proezas de heróis acreanos.

Mas, acima de tudo, Lhé era uma figura irreverente. Isso, sim, é inegável. Certa vez, íamos fazer no jornal uma pauta de Dia das Crianças. A ideia era pegar uma foto da infância de algumas personalidades locais e colocar uma mensagem delas de boas lembranças. Adivinhem quem deu mais trabalho? Sim, ele. Lhé mandou uma foto sua de vestido. Perguntei a ele: “Lhé, mas essa foto tem duas crianças de vestido? É você mesmo aqui?”. Ele me respondeu:  “rapaz, naquela época a gente usava isso. Todo mundo usava. Era moda”.

O mais triste é pensar que Lhé se foi em um momento tão obscuro, repleto de retrocessos, de inversão de valores, de ameaças a liberdades e tão cheio de ódio como esse. Sua trajetória sempre foi tão rica, tão cheia de boas batalhas. Uma pena ele nunca ter visto a sua amada Palestina como um Estado. Mas fico com a consolação de saber que para todo grande lutador não há desesperança. Pelo contrário, há sempre a certeza de que as coisas serão melhores no amanhã.

Com este texto de despedida, deixo aqui meu último Adeus ao guerreiro Lhé, um amigo e um símbolo de tantas lutas. Vá em paz, Lhé. Você deixou seu legado. Fez sua parte nesse mundo!

 

* Tiago Martinello é jornalista. E-mail: [email protected]

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