Maestro Zezinho, uma nota

O prédio que fica quase em frente ao meu tem uma espécie de terraço no teto que vem sendo usado como palco de shows musicais nas últimas três semanas. A coisa toda fica bem bonita no instagram dos vizinhos. Meio fim de tarde, horizonte de cidade grande ao fundo e esse céu de outono – gente, é outono ainda – que São Paulo sabe fazer tão direitinho. É bem cool, vendo assim no modo silencioso do celular. Eu queria até vir aqui falar bem da iniciativa, mas – pra vocês posso dizer, não posso? – a real é que acho um tantinho invasiva.

Sabe, é domingo, a gente já está na décima primeira semana de confinamento, todo mundo com os nervos meio à flor da pele, tentando inutilmente se concentrar em um seriado qualquer, cheio de prato pra lavar e lá vai um saxofone a toda altura invadir o apartamento. Sei não… Nem de saxofone eu gosto. Semana passada era um piano, eu acho. Vou te dizer que até tentei me emocionar com a Asa Branca que fechou o show, e olha que Asa Branca pra me emocionar vou ali e já volto, mas me irritei do meio pro fim. O cara lá empolgado, arrastando as notas, pelo amor de Deus.

E aqui não estou questionando a qualidade dos músicos não, viu. Devem ser maravilhosos, ai de mim. É que ninguém bateu aqui pra perguntar se eu estava afim de ouvir um saxofone, bateu? Pois se não bateu, não pode entrar. Ainda assim, dou todos os meus likes a quem posta “o presente que fulano de tal deu à cidade”. “Coisa linda”, quase comento. Pois hoje, a vizinha da cobertura do prédio do lado resolveu gritar o que silenciei covardemente. “Cala a boca!”, a plenos pulmões. E cala a boca foi o que ela disse de mais doce.

Em defesa dos músico, saíram outros tantos. “Cala a boca você, infeliz.” Daí pra pior. Minha gente, montou-se um barraco que de fim de tarde cool, outono de cidade grande, não tinha nada. Cena de novela da Record. Não foi qualquer coisa não. Eu fiquei meio mal pelo saxofonista, pela sincerona e pelos vizinhos que tentavam curtir o show.  Mas uma partezinha de mim, aquela que a gente só apresenta para os amigos mais próximos, gostou foi muito. Não estou pra muita coolzice não. Que alívio ver esse povo vivo, sem filtro, sabe? Uma gritando de um lado, outros gritando do outro, a moça da janela da frente, quase caindo na tentativa de filmar a coisa toda, eu calada no sofá, com medo de algum dos envolvidos ter um ataque do coração, e o saxofone lá, a todo vapor, não parou um segundo sequer. Fotografia realista. Boa!. Uma ótima semana queridos.

 

(*) Roberta D’Albuquerque é psicanalista, autora de Quem manda aqui sou eu – Verdades inconfessáveis sobre a maternidade e criadora do portal A Verdade é Que…

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