ARTIGO – Geoglifos para Epymará e Kurampura

Nos escritos deixados por dois estudiosos-aventureiros que andaram pelo Acre na passagem do século XIX para o século XX, o Coronel Labre (fundador da cidade de Lábrea, Amazonas) e o Coronel inglês Percy Fawcett (que inspirou o personagem “Indiana Jones”), é possível perceber detalhes interessantes sobre Templos, Deuses e Demônios.

Esses personagens já mereceram a atenção dos estudiosos. O Dr. Hélio Rocha, da Universidade Federal de Rondônia, pesquisou sobre o fundador de Lábrea e publicou o livro “Coronel Labre” (Editora Scienza), o qual é recomendo para os pesquisadores da Amazônia Ocidental. De outra parte, sobre o Coronel Fawcett, a literatura está plena de descrições de suas aventuras e artigos técnicos, fruto de suas expedições pelos sertões do Brasil e andanças por tierras no descubiertas para estabelecer os limites da Bolívia com Brasil e Peru.

Em ordem cronológica vamos iniciar em 1877, com o Coronel Labre e sua expedição que varou a pé desde a margem esquerda do Rio Madre de Dios, no atual Departamento de Pando na Bolívia, até chegar na margem direita do Rio Acre, na região da desembocadura do Riozinho do Rola, nas proximidades do atual “Lago do Amapá”, num percurso aproximado de 250 km.

Enquanto Labre caminhava, por bem cuidadas trilhas e varadouros indígenas, ele notou vários campos circulares, com casas e templos. Numa taba Araúna (indígenas que habitaram os rios Abunã e Orton na Bolívia) ele descreveu:

“…vi um pequeno tijupal (palhoça) servindo de templo, onde estavam guardados seus penates (Deuses protetores) ou ídolos”.

Seguindo sua caminhada, o Coronel Labre continuou suas anotações:

“…Boa casa ainda em estado de conservação, um templo e pátio grande e bem limpo…”. “Passamos por três taperas, tendo uma d’ellas grande área aberta em prado com restos de árvores frutícferas”.

“…Casa grande em bom estado de conservação e limpeza, e um templo onde ainda conservam-se os ídolos indígenas (objetos consagrados ao culto), o pátio da casa estava limpo e varrido, confundindo-se com a praça do templo. N’esta povoação houve antigamente uma grande tribo, segundo anuncia a área, em torno da habitação, formando um círculo perfeito (Geoglifo?), com diâmetro de um kilometro…”

“…Passamos por um campinho de 1.500 metros de circunferência, que disseram os Guarayos (indígenas do rio Abunã) ser lugar de plantações antigas”.

Esta povoação…tem uma área de campo aberto, perto de 5 kilometros em circunferência, tendo de diâmetro 1.500 metros”.

“…eram pequenos prados naturaes …o maior d’elles poderia ter 5 kilometros de comprimento, com uma largura de 2 kilometros na parte central”.

Mamuyeçada é uma maloca de 100 e tantos a 200 habitantes; tem forma de governo, templos, culto e religião …(mulheres)… sendo-lhes prohibida a entrada no templo e obrigadas a ignorar os nomes e formas dos ídolos, que não tem forma humana, são figuras geométricas, feitos de madeira polida. O maioral ou pai dos deuses chama-se Epymará, tem forma elipsoide e poderá ter em dimensão de 35 a 40 centímetros”.

A citação acima, do Cel. Labre, mereceu a atenção de Denise Schaan, principal estudiosa dos Geoglifos do Acre: “Ali (Labre) aprendeu que aqueles povos adoravam deuses de formatos geométricos, esculpidos em madeira”.

Trinta anos depois de Labre, em 1907, passando pelas mesmas trilhas, nas proximidades da atual cidade de Capixaba, região conhecida por antigos campos naturais e com muitos Geoglifos plotados, o Coronel Fawcett fez as seguintes anotações (tradução nossa):

Acampamos em um lugar chamado Campo Central, com a missão de encontrar as nascentes de alguns rios e anotar suas posições. Enquanto realizávamos o trabalho, observamos enormes campos circulares, de uma milha ou mais em diâmetro (aproximadamente 2 mil metros), o local há poucos anos passados era uma grande aldeia dos Apurinãs. Alguns desses índios ainda vivem num lugar chamado Gavião. Esses índios, haviam se submetido à civilização e pareciam contentes o suficiente, exceto pela malícia de um espírito chamado Kurampura”.

Ainda no Acre, Fawcett observou que, “aqui e ali um tronco havia sido esculpido no formato de um cone de 30 a 35 cm de altura, provavelmente com motivo religioso”.

Assim, podemos inferir, pelas observações dos desenhos representados pelos Geoglifos (círculos, quadrados, hexágonos e octógonos) e pelos Deuses e ídolos em formato de elipsoide e/ou cone, que os antigos habitantes do Acre faziam parte de um povo que dominava a geometria ao ponto de suas aldeias e seus Deuses serem representados em formas geométricas.

Sobre o olhar respeitoso que devemos ter para com os Geoglifos, vale lembrar o alerta do ex-governador Binho Marques: “Será necessário um esforço de todos – Estado, empresas, comunidades – para a conservação dos Geoglifos, para pesquisá-los e conhecê-los melhor, para incluí-los no nosso sonho de um desenvolvimento econômico social e ambientalmente sustentável. Queremos disseminar um sentimento de responsabilidade sobre essa riqueza tatuada na pele de nossa terra. É necessário que cada acreano veja e reveja o solo sagrado onde pisa”.


Para saber mais:

Fawcett, P.H. 2001. Exploration Fawcett. Phoenix Press, London.

Marques, B. 2010. A força das imagens. In: Schaan, D.P.; Ranzi, A.; Barbosa, A.D. (Org.). Geoglifos: Paisagens da Amazônia Ocidental. Rio Branco: Editora GKNoronha. p. 7.

Rocha, H. 2016. Coronel Labre. São Carlos: Editora Scienza. 234p.

Schaan, D., Ranzi, A., Barbosa, A.D. 2010. Geoglifos: Paisagens da Amazônia Ocidental. Rio Branco: Editora GKNoronha. 100p.


*Alceu Ranzi é professor aposentado da UFAC

**Evandro Ferreira é pesquisador do INPA e do Parque Zoobotânico da UFAC

 

Foto da capa: Diego Gurgel / Acervo Pessoal

Assuntos desta notícia