ARTIGO – Sem proteção 

Impressionante ver a forma que o governo manipula a população. De início era “Fique em casa” e discutíamos formas de auxílio para que isso ocorresse. Proteção contra despejos, subsídio nas contas de energia elétrica, água, auxílio emergencial, proteção para o trabalhador não ser demitido, proteção para as empresas não quebrarem.

Sabemos da importância do isolamento para a manutenção da vida, mas de uma forma muito estranha fomos convencidos que abrir comércio seria necessário agora. “E quem precisa trabalhar!?”. “Isolamento é privilégio”. Então ao invés de discutirmos como resolver e cuidar de quem está na margem, mudamos para “SE PUDER, fique em casa”. Comércio aberto dentro de algumas normas de restrição, só 4 horas e tal. Ah, mas aí não faz mais sentido qualquer forma de proteção a pequenos comerciantes ou trabalhadores, porquê estão trabalhando, não precisam de ajuda. E as contas de energia voltam, agora cobrando retroativo.

Vamos voltar a discutir formas de proteção e auxilio? Isolamento? Não! Já abriu tudo, vamos falar sobre voltar ao horário normal de trabalho para não quebrar as pequenas empresas e não ter mais demissão. Mas “se puder, fique em casa”. Com a abertura, mulheres que trabalham não tem como deixar os filhos sozinhos em casa. Um risco real. Ah, agora vamos falar sobre formas de auxílio e proteção? Não! Já abriu tudo, todo mundo na rua, vamos falar em reabrir as creches e escolas.   E conseguem convencer que essa é a solução para não falir as mães. Mas como? Crianças tocam em tudo, porquê são crianças. Ah, então vamos abrir as escolas em um esquema de rodízio.  Já tem gente suficiente defendendo a abertura das escolas porquê foram convencidos que é isso que vai proteger as mães. Ninguém vai perceber que em rodízio é trocar 6 por meia dúzia. Ninguém trabalha só uma vez por semana e só por meio período, mas o importante é sanar um pedido popular plantado pelo próprio governo.

Ah, mas o governo é legal e a abertura só vai se dar quando a ocupação em UTI não estiver à beira de um colapso para ter leito garantido para o seu filho. Enquanto isso, a mídia brasileira segue com seu papel de indução da opinião pública. Agora pela briga entre as pessoas, vamos sim esquecer que um dia se falou que o governo tinha responsabilidade nisso. Não, esquece! Não tem! A culpa é do vizinho que encontrou uma amiga em casa. A galera da obra que foi tomar uma cerveja na esquina.  Eles sim, são culpados pelo genocídio. Manchetes falando que sol na praia diminui o contágio. Que médicos estão fartos de quem está saindo de casa na epidemia. E, resultado? Temos pessoas saindo que não cumprem distanciamento e outras revoltadas por cumprirem enquanto outros saem por lazer.

Vamos cobrar nossos direitos? Políticas públicas para a proteção? Alguma forma de informação oficial baseada em ciência e acessível a todos? Políticas que auxiliem a economia durante o isolamento? Não! Agora vamos brigar entre nós, afinal a culpa de tudo isso é de quem saiu do isolamento e as mortes continuam acontecendo.

Falar que as pessoas são irresponsáveis e culpá-las dessa desgraça é cegueira, nada de novo. A culpa sempre cai sobre os mais fracos. Falta política pública real, informativa e responsável!


Beth Passos é jornalista 

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