ARTIGO – Uma cura para a Covid-19? Depende do contrafactual

“O meu irmão tomou esse chá e se curou de Corona.  Por que as autoridades não divulgam esta cura?”  Já ouvimos ou lemos muitas frases como esta nos últimos meses.  Neste artigo vamos tocar num conceito que pode ser familiar, mas com um nome pouco usado. Basicamente, se trata da expectativa do que aconteceria se a pessoa não tivesse tomado o chá.

A palavra ‘contrafactual” vem da ideia da alternativa a um evento que aconteceu.  Em psicologia ela pode ter as suas limitações como meio de raciocínio, mas serve muito bem para focalizar atenção sobre a nossa maneira de pensar, especialmente quando temos um problema que precisa de ação.  Por exemplo, a eficácia de políticas públicas em saúde e educação só podem ser medidas se tivermos uma ideia do contrafactual.  Cada vez mais se usa este conceito na avaliação do impacto destas políticas.

Fazemos contrafactuais diariamente, mas muitas vezes sem pensar no potencial da veracidade deles.  Por exemplo, quem falou a frase que iniciou este artigo viu que o seu irmão se recuperou.   A informação dominante na mente desta pessoa provavelmente foi que a Covid-19, a doença provocada pelo novo Coronavirus, mata. O fato de que o irmão dele não morreu significa que foi por causa do chá.   A lógica parece simples, mas algumas informações a mais podem ajudar a construir um melhor contrafactual. Para isto, porém, mais dados ajudam.

Para construir este contrafactual, precisamos saber quantas pessoas infectadas com a Covid-19 morrem ou ficam muito doente sem tomar chá.   Estes dados não são tão fáceis de conseguir porque uma parcela dos infectados não mostram sintomas.

Para simplificar o exemplo vamos dizer que de dez pessoas infectadas, 3 não mostram sintomas, 5 tem sintomas leves, 1 tem sintomas graves, vai para hospital e se recupera e 1 vai para hospital e morre.

Neste exemplo, 90% das pessoas se recuperaram e 10% morreram.   Vamos assumir que ninguém deste grupo tomava o chá. Se essa pessoa tomasse o chá teria sobrevivido? Para responder isto seria melhor incluir centenas ou milhares de pessoas (baseamos esse número no chamado cálculo da amostra), em um estudo científico onde metade dessas pessoas tomaria o chá e a outra metade não tomaria o chá e todos seriam acompanhados por 1 mês. A COVID-19 costuma causar a morte dentro de um mês, portanto se o chá funcionasse mesmo, poderíamos ver que fez a diferença nesse tempo.

No exemplo acima, as 5+1 pessoas que tiveram sintomas se recuperaram, ou seja, 60% do grupo sem tomar chá.  Três ou 30% nem sabiam que estavam infectadas, o que é um problema sério porque eles podem estar espalhando o vírus, mas isto é assunto para um outro artigo.

Vamos agora nos concentrar nos 7 que mostraram sintomas da Covid-19; 6 (86%) deles se recuperaram sem o chá.  Então mesmo sem que tivesse tomado chá, o irmão teve grandes chances, quase 90%, de se recuperar e não morrer.   Com estas chances, baseado numa avaliação do contrafactual mais clara, seria muito ariscado dizer que o chá causou a recuperação do irmão.

Com estes dados da situação contrafactual podemos ver que a maioria poderia se recuperar sem chá.  Somente uma pessoa se recuperando não serve para provar que o chá ajuda na recuperação, precisamos muito mais pessoas em condições bem controladas para ter confiança nessa afirmação.

Um fato complicador é que pessoas não são robôs, elas respondem emocionalmente e consequentemente fisicamente a tratamentos, o que é chamado de efeito placebo. Existe também o chamado efeito Halthorne, semelhante ao placebo em que há melhora apenas pelo fato de se sentir cuidado ou recebendo atenção. É comum observar que o ritual de tratamento ajuda muito na recuperação de pacientes.  Então, se pode imaginar um experimento onde metade dos pacientes recebeu chá e a outra metade não recebeu nada; a metade que recebeu o chá melhorou, mas não seria possível saber se foi o chá ou a atenção que receberam.

Por isto, os cientistas usam testes chamados “duplamente cego”, ou seja, todos os pacientes recebem chá, metade com o composto ativo e a outra um chá comum e são tratados igualmente pelas pessoas que estão administrando o teste. Eles são alocados em um dos grupos por sorteio (randomização); nem os pacientes e nem os que dão o chá sabem se receberam ou não o remédio, ambos grupos são ´cegos´.  É preciso, porém, mais de dez pessoas, muito mais, para chegar a uma conclusão definitiva sobre a eficácia do chá.  Por esta razão, pelos custos, o cuidado ético e os poucos pesquisadores, os estudos demoram para serem feitos.

Obviamente, esta necessidade de montar estudos extensivos e planejados confronta o desespero da população que procura soluções imediatas para uma pandemia.  O desespero envolve os médicos, também. Recentemente, um especialista nos EUA lamentou que médicos aplicaram um tratamento de plasma em 70.000 pacientes, mas por falta de testes bem feitos não se sabe se o tratamento funciona de verdade.

Então, da próxima vez que alguém falar que um chá, dióxido de cloro, hidroxycloroquina ou plasma cura pacientes da Covid-19, pergunte qual contrafactual está usando e se existem resultados de testes randomizados e duplamente cegos.  Se não, estamos perdendo tempo precioso para encontrar a cura que precisamos.

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* Foster Brown é pesquisador do Centro de Pesquisa de Clima Woodwell, Docente de Pós-Graduação e Pesquisador do Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre (Ufac)

** Fernando de Assis é professor do curso de medicina da Ufac.

*** Odilson Silvestre é professor do curso de medicina da Ufac.

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