ARTIGO – O corte da árvore 

Anos atrás fiz amizade com uma senhora muito idosa. Sempre gostei de idosos, para mim são uma porta aberta para um tempo que não vivenciei. Pois bem: dona Vicença (esse era o nome dela) um dia me contou que dava aulas no interior, e em das fazendas que visitava, morava uma mulher muito gentil e quieta. Na verdade, a quietude era desesperança. Havia, no entanto, uma coisa que a mulher amava mais que tudo e que lhe fazia sorrir: uma árvore frondosa que ela tinha no pátio. O prazer dela era ficar na varanda e observar as folhas, flores, frutos e os passarinhos de sua bela árvore.

Um dia ela acordou e não havia mais nada: o marido cortou a árvore.

Mulheres em relações planas, sem hierarquia onde homem manda e a gente obedece, sem serem objetificadas e tratadas como mais uma propriedade do marido, são mulheres que seguem tendo desejo sexual ao longo dos anos. Então, quando uma mulher com seus 50 e poucos anos me diz que precisa de um remédio por que não tem mais desejo ou qualquer interesse em transar com o seu marido o primeiro item na minha lista de diagnósticos diferenciais é o MACHISMO. E o remédio para isso não é um comprimido.

Os abusadores vão cortar a árvore, e se não puderem fazer isso fisicamente, vão tirar de você o prazer pelas coisas que você gosta com críticas que talvez você nem perceba, eles precisam da quietude e da submissão. Não deixem nunca ninguém cortar a sua árvore, e apoie a sua irmã mulher que não pode lutar sozinha.



Beth Passos é jornalista 

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