ARTIGO – Renascimento 

Quem segue vivo terá morrido um tanto. Maria perdeu o emprego. O patrão é milionário, mas disse que não poderia mais pagar o salário mínimo dela. Carla perdeu a mãe. Preferia ter perdido o emprego. Cecília manteve o emprego, em home office. Só que a saúde mental não existe mais.

Francisca acha que o vírus não existe e que a semente que o pastor vendeu vai curar qualquer maldição. Francisca tosse muito há 5 dias. Gabriela trabalha em hospital. É médica. Chora todos os dias. Ou quer chorar, mesmo quando não chora. Vivencia uma ingrata realidade que vai de encontro ao negacionismo das inúmeras pessoas que vê correndo sorridentes no calçadão no seu caminho de volta do hospital.

Pedro não volta mais para casa. Prefere dormir na casa de um amigo que o acolheu. O medo de contaminar a família adoece Pedro aos poucos. Pedro entrega comida por aplicativo. Pedro ganha menos de 1000 reais por mês.

Thais tem pesadelos todos os dias. Está desempregada desde antes da epidemia. Thais é uma excelente contadora. Thais não sabe como pagar o aluguel no próximo mês.

Marcelo ignorou a quarentena e continuou visitando os pais e avós aos finais de semana. Marcelo está isolado em casa, há 10 dias, com o pulmão totalmente comprometido, porém, sem nenhum sintoma. Marcelo perdeu seus avós há 4 dias para o Covid-19. O que restou de sua família está agora em quarentena total por ter tido contato com Marcelo nos finais de semana.

Josias furou o distanciamento e seguia com encontros sociais com amigos sempre que sentia entediado. Josias era portador do vírus e não sabia. Contaminou 3 amigos que, sem saberem, espalharam para mais 3 pessoas cada. Do total, 5 dos contaminados necessitaram de internação. O pai de um deles precisou de UTI.

Regiane, em plena adolescência, cobrava de todos que cumprissem a quarentena. Falava em responsabilidade e dizia que a regra valia pra todos. Mas a exceção à regra só valia para seu namorado que ela recebia em casa todos finais de tarde. Sua avó diabética, que cumpria rigorosamente a quarentena, está com tosse e febre há 5 dias.

Marta apanhou do marido depois de pedir pra ele não ir para o bar. Marta é hipertensa e cardíaca. Marta trabalha com faxina. Marta pega 3 ônibus todos os dias. Marta perdeu o filho para a COVID-19 há 10 dias.

Todas essas pessoas são reais. Todas têm nome, história, família.

Tudo que existe e existiu antes dessa pandemia. Não será como antes. Nenhum de nós será como antes. Enfrentaremos juntos um luto que desconhecemos. Coletivo e individual ao mesmo tempo. Luto pelo emprego, pelo país, pelo pai, pela mãe, pelo irmão, pela amiga. Por tudo que perdemos. E todos perderemos algo ou alguém. Não será possível sermos os mesmos em um mundo que mudou.

Quem seguir vivo terá morrido um tanto. Quem seguir vivo terá assistido a partida de amigos, parentes e de pessoas a quem admirava mesmo sem ter conhecido. Quem seguir vivo, seguirá talvez sem emprego, talvez sem o carro, talvez sem uma parte de si, perdida… sem saber onde encontrar.

Luto é verbo e sentimento. Mais do que nunca. Pessoas mortas não giram a economia. É preciso estar vivo para seguir adiante e se recuperar de tudo isso. Todos nós teremos que nascer de novo.



Beth Passos é jornalista 

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