ARTIGO – Sobrevivendo ao coronavírus 

Está longe de acabar nossa primeira onda, aquela, a do infindável platô decrescente, e relatos de médicos, inclusive alguns áudios apócrifos, mas vindos de fontes confiáveis nossas, dão a percepção, do ponto de vista de médicos que trabalham em hospitais, que estamos vendo o que poderia ser, já, o início da segunda onda no Brasil.

Sosseguem o facho, vamos sair só para o essencial, com todas medidas necessárias, evitemos completamente situações de refeições compartilhadas por motivos de confraternização. Vamos cuidar dos nossos, do nosso povo e dos nossos profissionais da saúde, pois eles estão vivendo o pior ano da vida deles. Fui até indulgente em não detalhar quais os reais temores dos médicos sobre uma segunda onda, agora, pois todos nós estamos, também, muito judiados, por todo esse difícil processo, e ninguém está podendo com detalhes de notícia triste.

Não sabemos, e talvez jamais saibamos, o que veio primeiro: se foi o vírus que aqui se instalou e causou toda a degradação, ou se foi a degradação, a insalubridade do nosso meio que gerou o vírus. São dúvidas que nos assaltam, mas não cabe a nós esclarecê-las. Primeiro — e isso eles nos fazem ver todos os dias — temos que nos ocupar dos nossos corpos, do pouco que ainda resta da nossa saúde.

O que para nós talvez seja um consolo parece ser o ponto decisivo e de causa ainda não desvendada pelas pesquisas: o vírus não afeta diretamente nenhum órgão determinado, o corpo se mantém clinicamente saudável, apenas cai sobre nós o cansaço.

Nos casos mais graves é um cansaço que aniquila, que pesa os ossos, que imobiliza o corpo até fazê-lo desabar. A degradação das nossas casas e ruas, o lixo, toda essa coisa inóspita que nos rodeia só vem aumentando com o cansaço. Mesmo o simples movimento de erguer a mão ou de abrir a boca para dizer uma palavra torna-se uma tarefa difícil. São fatos relatados por quem sobreviveu.

Os órgãos funcionam; urinamos, defecamos, transpiramos, mas se não passar alguém para nos arrastar até o hospital, permanecemos deitados até morrer de inanição. E aí entra outro dado que talvez tenha surpreendido nas pesquisas: a resistência do corpo, mesmo sem ser alimentado. Muitos de nós sobrevivem meses e meses, imóveis sobre a calçada. É um ponto a nosso favor. Enquanto os médicos não acham a cura, nós vamos resistindo.



Beth Passos é jornalista 

E-mail: [email protected]

Assuntos desta notícia