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Roberta D'Albuquerque
Roberta D'Albuquerque é psicanalista. Email: [email protected]

ARTIGO – Um minutinho da sua atenção, por favor

Problematizadores do meu Brasil, não venho em missão de paz. Estou aqui para propor uma reflexão raivosa sobre o uso – ou seria abuso – do  verbo ajudar. E vou logo dizendo, ando cansada dele. Ocorre que o hype agora é usá-lo para se referir a acordos feitos, a obrigações que cabem a quem o usa.

Um exemplo fictício para ilustrar. Digamos que, por razões que fogem ao seu controle, você precise, assim, fazer uma pequena reforma no meio dessa confusão. E aí você faz o que? Contrata um pedreiro. Juntos vocês negociam orçamentos e prazos. Tudo certo. Bem, mais ou menos. Você pensou que a coisa toda era um pouquinho mais rápida. Veja bem, derrubar uma parede de mentira, que aparentemente agora se chama drywall, subir outra, pintar. Trinta metros quadrados. Quinze dias. Você que não é pedreira nem nada, meio que acha muito e meio que concorda, porque, né? Quem mandou não conhecer drywall a essa altura da vida. Estamos no décimo quarto dia. Dé-ci-mo-quar-to-dia. Você liga para saber se amanhã já pode chegar com a mudança e o homem responde: vou te ajudar, sexta, no máximo, começamos a pintura.  Ajudar?

Outro exemplo. Faz de conta que você é mulher no Brasil e que, sei lá, tem filhos. E aí o pai de seus filhos é um pai de filhos, sabe assim? Como será descrito o paternar desse homem? “Nossa, como fulaninho ajuda, que amor”. Não. Minha gente, quando um pai paterna, ele não está ajudando a mãe. Está fazendo o que tem que fazer. Só isso.

Eu gostava de ajudar antes dele virar modinha. Ajudar era assim, alguém está vivendo sua vidinha e acontece algo difícil de resolver. Vem outro alguém, que não tem nada, nada mesmo, a ver com isso e, com alguma atitude ou um gesto, uma fala, diminui a dificuldade da questão. Nem precisa trazer solução completa, viu? A pessoa AJUDA. Pronto. Às vezes o alguém 1 conhece o alguém 2, quer bem, se preocupa. Às vezes nem isso. Importante também que o alguém 2, se possível, não sinta um desejo incontrolável de alardear o movimento. E que caso sinta, controle-o. Controle-se.

Vamos aqui juntinhos aprender a lição de hoje : não tome por boa vontade o que não passa de obrigação. Seu tempo não é mais importante do que o de ninguém, alecrim dourado. Boa semana queridos.


(*) Roberta D’Albuquerque é psicanalista, autora de Quem manda aqui sou eu – Verdades inconfessáveis sobre a maternidade e criadora do portal A Verdade é Que…