ARTIGO – Vacina de Natal 

Eu também gostaria de inventar uma vacina. Uma vacina emocional. O objetivo seria combater um tipo de amor infantil que nos contaminou no início da vida. Sem anticorpos afetivos, fomos tomados por um sentimento de necessidade e exigência. Essa síndrome também pode ser chamada de doença da idealização. Na adolescência, reagimos a ela, porém, sempre sobra alguma carga viral.

Quando menos se espera, estamos delegando a alguém o poder de nos aprovar, nos proteger e nos oferecer respostas. As recaídas acontecem em todas as idades e têm, como principal sintoma, a frustração.

Há pessoas que, para evitar a reinfecção, até optam pelo isolamento. Como não podem se defender da febre de querer tudo, evitam os contatos. Muitos tipos de máscaras são usados para lidar com o vírus da fome amorosa: a de perfeccionista, de dramático, de poderoso, de prestativo, mas nenhum tipo garante proteção eficaz contra a insatisfação permanente.

Por isso, sonho com a composição de uma vacina assim: Uma boa dose de desistência, para aceitar que ninguém está à altura das nossas fantasias. Um pouco de solidão, para assumir decisões e processos que só cabem a nós.

E um indutor de autonomia, para suportar os ataques externos. Claro, que pode haver um movimento antivacina. Podem alegar risco para as relações e tentar confundir amor com controle, proximidade com fusão.

Então, teremos que fazer uma campanha contra as fake news dizendo: Vacine-se contra o endeusamento, cada um dá o que tem. Ou então: Procure uma unidade de saúde e cure a criança birrenta que existe em você. Ou ainda: Faça a sua parte para combater a epidemia dos egos inflados.

Tudo isso para finalmente entendermos que só nos tornamos adultos, maiores e vacinados, quando aprendemos sobre o amor. E amor não é dependência, é reciprocidade.



Beth Passos é jornalista

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