ARTIGO – E tudo é muito

Vocês assistiram a AmarELO – É tudo pra ontem? O documentário foi lançado em dezembro último e está no catálogo da Netflix. Uma preciosidade, assistam. Muitas cenas e falas marcantes. Ontem, lembrei com força de uma delas, quando na música Nóiz, se escuta repetidas vezes: “Tudo que nóiz tem é nóiz”.

Encontrei duas amigas que já não via há mais de um ano. Falamos algumas vezes, ao telefone, em 2020, trocamos impressões sobre o que acontecia a cada uma de nós durante o isolamento. Histórias curtas interrompidas pelas crianças, pelo trabalho, pelo que era possível – internamente – dividir ou não; repercussões sobre o que tinha acontecido aqui e ali, comentários sobre os caminhos da pandemia, da política, da vida. Tudo muito, muito importante, mas tudo pouco.

Muito porque foram essas trocas parte do que tornou esse ano suportável. Pouco porque não há chamada de vídeo, zoom, google meet ou sei lá o quê, que substitua o encontro, a presença. Brincamos do jogo do quebrado – que na verdade tem outro nome, que não cabe nesse espaço, mas começa com ‘f’. E tenho brincado tanto desse jogo nos últimos tempos. Consiste em contar, sem filtros, tudo de péssimo que está acontecendo a cada um. Libertador. Fiquei comovida ao ouvir os relatos das meninas. Ninguém ganhou o jogo. O ano foi mesmo incrivelmente duro e desafiador para nós três.

Nos conhecemos há vinte anos. Éramos jovens, levinhas e sim, claro, tínhamos questões a resolver, a pensar, mas como a vida ficou real de uma hora para outra, não? Lá pelo fim da noite, quando ambas já tinham chamado seus carros, Mimi lembrou: “Aconteceu tudo isso, mas a gente está aqui, não está? Juntas e vivas”. Sim, Mimi, juntas e vivas.

Queridos, liguem para os seus, se façam presentes, perguntem como estão as coisas, e mais importante ainda, fiquem para ouvir a resposta, escutem de verdade. Mesmo quebrados, somos capazes de fortalecer os nossos. Elas me fortalecem. Susi e Mimi, obrigada por ontem. Vocês me recuperam o fôlego. Tudo que nóiz tem é nóiz.


(*) Roberta D’Albuquerque é psicanalista, autora de Quem manda aqui sou eu – Verdades inconfessáveis sobre a maternidade e criadora do portal A Verdade é Que…

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