ARTIGO – Ideário egoísta 

Depois das festas de final de ano, o que mais se ouve noite adentro são ambulâncias enlouquecidas. Parece ser em número ainda maior se comparadas ao som noturno dos piores meses do primeiro semestre de 2020. E a ressaca do Natal só vai aparecer em torno do dia 7 ou 8 e a do Réveillon mais ou menos pelo 14 de janeiro.

Os veículos de comunicação de massa optaram pela linha “ah, nada como falar em esperança no começo do ano”.

O cômodo comportamento “faz de conta que nos importamos profundamente com o povo brasileiro, pois fazemos um jornalismo responsável”. Responsável, inclusive, por convencer a população que a escolha, no calor da emoção de uma “facada”, seria melhor para o Brasil.

Despreocupado, o presidente Jair Bolsonaro proporcionou mais uma imagem chocante dele, agora na praia, mas Paulo Guedes faz o serviço. E o Ricardo Salles, bem, Salles, a imprensa não mostra muito, mas também, ele nunca aparece. Fazer o quê? Não podemos obrigá-lo a dar entrevista. Um estadista confessar sua incompetência ao dizer que não pode fazer nada, que não fez planejamento nenhum para combater o vírus e agora diz que suspendeu a compra de seringas porque subiu o preço, pois o mundo inteiro está precisando e comprando seringas há muito tempo e o presidente quer pechinchar com as vidas dos brasileiros.

Nós, jornalistas de fato, e os do consórcio de veículos de comunicação, sempre que possível, contabilizamos o número de mortos e contaminados? Então, a gente é mais responsável que o Ministério da Saúde.

Dia 6, quarta-feira, fez um mês que meu irmão Álvaro Ferreira dos Santos morreu dentro do hospital modelo em tratamento da Covid, o Instituto de Traumatologia e Ortopedia do Acre, o INTO, e até hoje não explicou como ele deu entrada com 15% do pulmão comprometido e morreu naquele abatedouro de vidas humanas.

No mesmo dia, assistindo ao Jornal do Acre, ACTV, que por tantos anos apresentei, vi familiares reclamando do sumiço do corpo de um paciente falecido. Ainda bem que acompanhei minha cunhada Arlene no reconhecimento do corpo do meu irmão, e, infelizmente, era ele. O que esperar de uma instituição que até setembro não possuía sequer um infectologista? Trocar ou sumir com um corpo deve ser tarefa fácil para uma equipe de saúde tão silenciosa e fria quanto à morte.

Também no triste e chuvoso dia 6, em visita a um cemitério de Rio Branco, verifiquei a quantidade de túmulos rodeando a última morada terrena de meu irmão. Um aumento de cerca de 30% de novas sepulturas com previsão de 7 enterros naquele dia. Não tive condições físicas ou psicológicas de pesquisar nos outros cemitérios, mas posso garantir que aumentaram também os sepultamentos.

A situação nunca esteve tão grave, ou sou eu que estou vivendo uma realidade paralela. Que medo! Peço perdão por todos os inconsequentes. As pessoas não perderam o bom senso ou elas nunca tiveram. Mas a bolsa de apostas continua quente. Talvez ainda mais pois teremos mais tempo para as especulações!

Temos interesse próprio: somos um grupo de comunicação, jornalistas sérios, muito sérios, mas…”  Sim; eu sei. Trata-se de uma empresa privada que comunga do ideário egoísta. Não há nada de revolucionário, claro, querem minha complacência? Perdão. Isso não é possível! O mundo que vocês constroem diariamente esbarra em sonhos meus de justiça e fraternidade.



Beth Passos é jornalista 

E-mail: [email protected]

Assuntos desta notícia