ARTIGO – Surtos 

Por ter perdido recentemente um familiar tão próximo e amado, algumas pessoas me perguntam se estou deprimida. Parece uma pergunta boba, mas não é. A maneira como vivemos atualmente, se pudéssemos narrar a alguém de outro século, já pareceria um surto de depressão coletiva.

Vivemos em constante tédio, esperando algo que nos tire de um estado catatônico. Esse algo precisa cada vez mais nos estimular, aguçando os sentidos. Também estamos sempre frustrados com algo que não saiu como desejávamos. É como se a gente vivesse num constante estado pré-depressivo e qualquer coisa fosse servir como um gatilho.

Também já não podemos viver os devidos lutos impostos pela existência, pois todos já acham que há ali indícios da doença. Viver a nossa humanidade, com a certeza de que tudo é finito e com a noção plena da efemeridade que é a nossa vida muitas vezes se confunde com a depressão. No entanto, a doença ultrapassa a linha entre a autoconsciência e o sentimento aterrador de não conseguir se mover na própria cama, passando dias na mesma posição se ninguém intervier.

Estar deprimida (o) também nos afasta de nosso cerco de proteção humano, afinal, nos tornamos pessoas difíceis de amar (eis uma verdade dura) e é também para nós difícil demonstrar amor (o que não implica no fim do amor, nem no seu esfriamento). A depressão também pode ser leve ou severa. Para quem, como eu, lidou muito tempo com o primeiro tipo, sabe que é como se um filtro de barro estivesse imerso em água constantemente. Embora a água seja parte de sua composição, ela vai aos poucos destruindo a estrutura.

Obviamente, é mais fácil notar quando por um choque se arranca um grande pedaço do filtro do que quando as partículas vão se desintegrando gradualmente, invisível ao olhar mais desatento. Outra coisa que me faz perceber um ciclo depressivo é o valor emocional que dou aos eventos. Não é errado se aborrecer porque se quebrou uma unha. Mas sentir da mesma forma o pedaço de unha perdido ou a morte do seu cachorrinho de estimação de 15 anos é um sinal. Em depressão, não se consegue pôr as coisas em perspectiva. Talvez tudo isso aqui devesse ser dividido em vários parágrafos, talvez, não devesse mesmo existir. Mas escolhi escrever esse pedaço de inquietação e acredito que faço parte do surto coletivo mundial, porém lutando, correndo atrás dos objetivos, comendo, dormindo e sonhando com dias melhores para todos. Estou triste com minhas enormes perdas, mas não deprimida.



Beth Passos é jornalista 

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