ARTIGO – Lidando com os cavaleiros do Apocalipse

Não precisa pensar muito para perceber que estamos vivendo um cenário digno de filme sobre o fim dos tempos. Aqui, recorremos aos quatro cavaleiros do Apocalipse como uma metáfora para dizer: estamos mesmo indo mal! Biblicamente os quatro cavaleiros simbolizam a morte, guerra, fome e pestilência. Podemos nos perguntar: quando não vivemos isso na história da humanidade? Temos memória curta, então tendemos a somente pensar nisso quando estamos passando pelo ocorrido. Contudo, estamos vivenciando eventos ruins que não resultaram de fatores divinos, mas que para ocorrer contou com nossa significativa parcela de contribuição. Mas vale lembrar que à medida que provocamos problemas também temos a capacidade de resolvê-los.

Conhecendo os problemas

Hoje, temos que enfrentar uma gama de problemas que ocorrem simultaneamente. Em 2020, ficou claro como as coisas podem ser complexas, como tudo de uma hora pra outra pode mudar.

Iniciamos o ano de 2021 e seguimos convivendo com os cavaleiros do Apocalipse, que são principalmente: (1) A Covid-19, que segue firme e forte em suas ondas e variações; (2) desastres socioambientais; (3) Aedes aegypti e, por fim, mas não menos importante, (4) vulnerabilidade social.

Esta somatória de ameaças que atinge todo Brasil, também é fortemente vivida pelos acreanos. Desde março de 2020 nós acreanos enfrentamos a pandemia por COVID- 19. E quando parecia que os casos iriam reduzir com a chegada de um novo ano, em fevereiro tivemos umas das mais altas taxas de crescimento de novos casos [i].

Soma-se ainda, o surto de casos de Dengue. Com 5.429 casos confirmados para doença em 2020, o boletim epidemiológico da Secretaria Estadual de Saúde (Sesacre) também apontou que 15 das 22 cidades acreanas estavam em risco de epidemia de dengue. Só em Tarauacá já foram confirmados 216 casos de dengue nos primeiros dias de 2021.

Por mais que estudos científicos [ii] realizados em nossa região levantem a possibilidade de que a dengue possa induzir proteção imunológica contra o SARS COV-2 – o vírus causador da Covid-19 –, os sintomas de COVID-19 são mais intensos entre pessoas com histórico de dengue, apesar de sua mortalidade ser mais baixa. Os indícios de que os anticorpos para dengue podem ser reativos contra o SARS-COV-2 levou a testes falso-positivos para COVID-19, o que significa que pode gerar confusão nos prognósticos de ambas as doenças.

A relação entre as duas doenças não para por aí, a preocupação maior é a lotação dos hospitais. Já na primeira semana de fevereiro tivemos 100% das UTIS destinadas a pacientes da Covid ocupadas [iii], no dia 5 de fevereiro o governo estadual do Acre por meio do Comitê Acre Sem Covid decretou fase vermelha, onde as medidas mais restritivas são aplicadas perdendo somente para o lockdown. Na UPA Sobral – localizada   em uma das regiões mais populosas de Rio Branco – de acordo com a direção do hospital, são mais de 300 atendimentos por dia, sendo que 80% são casos suspeitos de dengue. Segundo as autoridades o período de chuvas contribui muito para o número de criadouros do mosquito Aedes aegypti.

Então temos o terceiro cavaleiro. Os desastres socioambientais são assim chamados porque é muito difícil um desastre ambiental ocorrer sem ter a mão do homem envolvida em algum momento. No Acre, se pudéssemos simplificar, temos 6 meses de seca, queimadas e muita fumaça e depois 6 meses de chuva e as chamadas alagações. Esses, são considerados desastres pois interferem na rotina da comunidade[iv]. Em 2021 enfrentamos um alto risco de grandes enchentes, como as já conhecidas pelos acreanos nos anos de 2012 e 2015. Agora, na última semana de fevereiro, o Acre conta com cerca de 130 mil pessoas atingidas direta ou indiretamente pela cheia dos rios na capital e no interior do estado. Situação que levou o governador do Acre, Gladson Cameli, decretar estado de calamidade pública em dez cidades do estado.[v]

Fonte: Arquivo pessoal. Rio Acre na Gameleira, foto tirada em 11 fev 2021.

Esse cenário envolvendo múltiplos problemas é acompanhado pela vulnerabilidade social que permeia todo nosso estado. A falta de planejamento e visão de futuro por parte do poder público motivou e continua motivando a invasão “urbana” de áreas baixas, propicias a enchentes, onde se formam bairros carentes de infraestrutura, em geral, pobres e socialmente vulneráveis. Na bacia hidrográfica do rio Acre o ciclo das águas estabelecido pelo clima causa esporadicamente alagações em áreas de risco nas épocas de chuvas, ocasionando o desalojamento de milhares de famílias [vi]. Em 2019, de acordo com o IBGE, o Acre constava como o segundo estado brasileiro com maior proporção de pessoas vivendo na pobreza, com 16% da população vivendo com nessa situação[vii]. Na pandemia, somente na capital 154.815 pessoas receberam o auxílio emergencial[viii].

Em geral, é a população vulnerável socialmente que sofre com enchentes e que precisa do Sistema Único de Saúde (SUS) quando contaminadas por Covid-19 ou Dengue. Com a temporada de chuva, Defesas Civis estadual e municipais se preocupam com a logística de retirada de famílias atingidas por enchentes. O trabalho que já era complexo agora exige um plano de contingência que dê conta de gerir pessoas infectadas por Covid-19 e pessoas não infectadas, para que não haja contaminação em massa nos abrigos.

O Acre não está sozinho nessa, os departamentos de Pando (BO) e Madre de Dios (PE), que fazem fronteira com a gente e juntos compõem a região MAP (Madre de Dios, Acre, Pando), também passam por problemas semelhantes. O que levanta outra problemática, que se encaixa na vulnerabilidade social, que é a decisão de fechamento ou não das fronteiras com esses países. O governador Gladson Cameli pediu, no dia 26 de janeiro, ao ministro das Relações Exteriores, o apoio da União para o imediato fechamento das fronteiras e divisas do Estado Acre[ix]. A zona fronteiriça também sofre com agitações de imigrantes, a pequena cidade de Assis Brasil (AC) abriga imigrantes a mais de um ano. Com a falta de trabalho causada pela pandemia, muitos optaram por retornar para sua terra natal por meio do Peru, porém com as fronteiras fechadas foram impedidos, o que levou a protestos no último dia 14.

Lidando com os problemas

Agora é a hora que pensamos em soluções para esse conjunto de problemas. Essa tarefa passa pelo respeito à natureza, de forma a não causar degradações que resultem em pandemias e inundações. Assim, meio ambiente e sociedade não podem ser pensados isoladamente, mas como um todo.

Algumas atitudes podem ser tomadas de imediato, tais como:

  • Seguir as regras sanitárias estabelecidas pelas autoridades, o que colabora para a redução dos casos da Covid-19 e evita a super lotação dos hospitais. Assim mesmo, igual o efeito dominó! Uma atitude que parece pequena afeta toda a cadeia de acontecimentos.
  • Reunir esforços para não deixar água parada nos quintais e se proteger da forma que for possível, para que os casos de dengue não aumentem.
  • Ações preventivas ajudam a reduzir também os riscos de enchentes. Uma boa forma de prevenir que enchentes aconteçam é não obstruir córregos, igarapés e bueiros.
  • Também é importante pressionar o poder público para realocar pessoas de áreas de risco, assim, garantindo-lhes uma vida digna. E também, elaborar políticas ambientais efetivas. Bem como fortalecer seu diálogo com os imigrantes acolhidos em terras acreanas.

É claro que precisamos da colaboração das instituições governamentais e não governamentais. Mas a sociedade civil pode se organizar para lograr ações mais efetivas. É o exemplo do MiniMAP de Gestão de Risco e Defesa Civil, um grupo de pesquisadores e autoridades do poder público de Madre de Dios, Acre e Pando, que lançaram uma carta aberta alertando sobre as complexidades da combinação pandemia e inundações. Também é tempo de exercitarmos nossa solidariedade, uma vez que várias famílias estão sofrendo com as enchentes, muitas campanhas de arrecadação de donativos foram criadas. Podemos tomar essas ações coletivas como exemplo de como podemos fazer bem mais juntos.

CARTA MAP – COVID 3 LINGUAS 9FEV2-3

Acesse em: https://drive.google.com/file/d/15a7bnllkYPr5T9Q7W6mfS181kIscbyS7/view?usp=drivesdk


Autores:

* Gleiciane de Oliveira Pismel – socióloga e pesquisadora assistente no Projeto MAP-FIRE.

** Irving Foster Brown – Pesquisador do Centro de Pesquisa de Clima Woodwell, Docente de Pós Graduação e Pesquisador do Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre (UFAC).


 

NOTAS:

[i] Boletim Sesacre. Disponível em: < https://agencia.ac.gov.br/agencia-de-informacoes-sobre-coronavirus/>. Acesso em: 14 fev 2021.

[ii] Odilson M Silvestre, MD, PhD, MPH, Letícia R Costa, Bianca V R Lopes, Mariana R Barbosa, Kárenn K P Botelho, Kelvyn L C Albuquerque, Anna G S Souza, Lorran A Coelho, Anderson J de Oliveira, Cínthia B Barantini, Sebastião A V M Neves, MD, PhD, Wilson Nadruz, MD, PhD, James H Maguire, MD, MPH, Miguel M Fernandes-Silva, MD, PhD, MPH. Previous dengue infection and mortality in COVID-19. Clinical Infectious Diseases,, ciaa1895, https://doi.org/10.1093/cid/ciaa1895

[iii] Disponivel em:<https://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2021/02/07/taxa-de-ocupacao-de-leitos-de-uti-para-covid-19-chega-a-100percent-e-ac-tem-50546-infectados-pela-doenca.ghtml>. Acesso em: 14 de fev 2021.

[iv] UNISDR, United Nations Internacional Strategy for Disaster Reduction. Terminology on Disaster Risk Reduction. Geneva, 2009. (Disponível também na versão espanhol)

[v] Governo do Estado do Acre e Agência Brasil.

[vi] DUARTE, Alejandro Fonseca. AS CHUVAS E AS VAZÕES NA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO ACRE, AMAZÔNIA OCIDENTAL: CARACTERIZAÇÃO E IMPLICAÇÕES SOCIOECONÔMICAS E AMBIENTAIS. Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 6, n. 12, jan./jun. 2011. Disponível em:< http://acrebioclima.net/abcpublications/Environment_and_Health/n12_chuvas_e_as_vazoes_AFDuarte.pdf>.

[vii] IBGE. Síntese de Indicadores Sociais (SIS), 2019. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/rendimento-despesa-e-consumo/9221-sintese-de-indicadores-sociais.html?=&t=downloads>. Acesso em: 23 fev 2020.

[viii]Detalhamento do Benefício Auxílio Emergencial. Disponível em:< http://www.portaldatransparencia.gov.br/beneficios/auxilio-emergencial?paginacaoSimples=true&tamanhoPagina=&offset=&direcaoOrdenacao=asc&colunasSelecionadas=linkDetalhamento%2Ccpf%2Cnis%2Cbeneficiario%2Cobservacao%2CvalorTotalPeriodo&de=01%2F05%2F2020&ate=31%2F01%2F2021&uf=AC&municipio=16896&ordenarPor=beneficiario&direcao=asc >. Acesso em: 7 fev 2021.

[ix] Agência de noticias do Acre. Disponível em:< https://agencia.ac.gov.br/para-conter-avanco-da-covid-19-gladson-cameli-solicita-fechamento-das-fronteiras-e-divisas-do-acre/>. Acesso em: 14 fev 2021.

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