ARTIGO – A educação e seus paradoxos 

É triste reconhecer que a educação tradicional é basicamente adestramento. Claro que as crianças de antigamente (que viraram os adultos que somos hoje) pareciam mais educadas (foco no pareciam), quando em geral só estavam se protegendo, com medo dessa disciplina que as colocava num lugar de menor importância, de submissão e de silenciamento.

Uma criança que foi educada a base de “disciplina dura”, em geral tem dificuldade em reconhecer seus estados internos, em manter autonomia, em tomar decisões sobre si, em se colocar sem machucar ninguém e nem “engolir” tudo para não machucar o outro.

Esse modo de educação autoritária tornou boa parte das pessoas em geral dependentes, neuróticos que não acessam partes importantes de si, porque ainda estão sob controle do outro.

A educação consciente traz tudo isso à tona, subvertendo papéis. Claro que ela é vista como permissividade, as pessoas sequer sabem o que é ter uma relação de respeito com uma criança, então categorizam essa educação na sua fantasia sobre o que seria respeito (e imaginam uma criança mandando nos pais, batendo neles, virando “delinquente”, tudo discurso da cultura).

Mas existem os paradoxos. A bondade que nunca repreende não é bondade: é passividade. A paciência que nunca se esgota não é paciência: é subserviência. A serenidade que nunca se desmancha não é serenidade: é indiferença. A tolerância que nunca replica não é tolerância: é imbecilidade.

Do alto da minha arrogância, já achei que “birra” era falta de disciplina. Projetava as partes de mim que não gostava no meu filho, quando os comportamentos dele me faziam sentir incapaz, impotente, “terrível”, eu dizia que o terrível era ele.


Beth Passos é jornalista 

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