ARTIGO – Dinâmica de conflito 

O BBB sempre foi um programa de rinha psicológica de humanos. Afinal, o que dá audiência é o conflito. O formato é planejado para isso e acaba sendo tóxico para muitas pessoas. Por anos a dinâmica foi de um grupo majoritário excluindo alguns participantes o que acabava levando o público a simpatizar com os excluídos e um deles acabava ganhando.

Lembro do ex-deputado federal Jean Wyllys, que se tornou uma figura relevante, pós reality, mas muita gente de biografia bem questionável ganhou o prêmio do programa mesmo assim. O que importa é a dinâmica interna, o público simpatiza com quem está sofrendo na visão dele. Com o tempo os participantes aprenderam isso e ninguém mais queria o papel de grupo majoritário que exclui o futuro vencedor. A Globo então foi mudando o formato da franquia mundial para tentar manter o conflito.

Nesta edição a Globo encontrou pessoas, que por pertencer a grupos marginalizados, ter papel de destaque nessas comunidades simbolizando orgulho e luta contra opressão, e que também se “consideram” tão representante do bem que não tiveram receio de excluir um igual de forma absurdamente agressiva. Ou seja, caíram na armadilha que os Boys e patricinhas do programa tinham aprendido a evitar.

A princípio parece estranho que o alvo dessa turma seja um rapaz negro de origem pobre, mas na vida real a maior parte das exclusões ocorre na família, no ambiente de trabalho, ou seja, no meio de pessoas em situação similar a nossa. Outro ponto importante é como as pessoas ao verem de fora tendem a torcer pelo excluído, mas quando fazem parte da situação tendem a querer fazer parte do grupo majoritário ou pelo menos não bater de frente com ele.

Vemos pessoas que excluíram colegas de colégio, faculdade e trabalho indignadas com o que fizeram com o ator Lucas Penteado, excluído da vez do BBB e que sofreu tanto bullyng que não aguentou e pediu para sair do programa, deixando mais uma vez, evidente que o reality é um programa que estimula conflitos entre pessoas por audiência.

O alto grau de manipulação garante que esse conflito se mantenha nas discussões o máximo de tempo possível.  (Aliás queria conhecer as negociações de bastidores, as promessas de vantagens, que artistas como Karol Conká e Projota que estavam com a carreira em alta aceitaram para entrar nessa furada. Geralmente artista em baixa é que topa).  Nem como estudo sociológico serve já que é uma situação totalmente artificial.

Quem está incomodado de verdade com o assédio, exclusão e outras coisas tóxicas no programa deveria cancelar o pay per view, não assistir mais o programa ou até estimular anunciantes a rever o investimento no programa. Ficar votando para tirar os vilões da vez só alimenta esse negócio de rinha de gente. Porém o brasileiro anda tão exausto das situações políticas, sanitárias e econômicas que deixasse levar a situações como parar o pais para assistir à eliminação de um dos confinados.


Beth Passos é jornalista 

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