ARTIGO – O Gatilho do Cancelamento 

Sou favorável ao cancelamento. Temos que cancelar o ódio gratuito. Temos que cancelar a arrogância de se achar melhor do que o outro. Temos que cancelar a mania de dizer que o colega é louco para neutralizar a divergência.

Temos que cancelar a hipocrisia de falar mal pelas costas como um capeta e bancar o anjo na frente da pessoa. Temos que cancelar a avareza emocional de não oferecer uma segunda chance. Temos que cancelar a covardia de agir em bando. Temos que cancelar a falsa modéstia, a falsa esperança, a falsa desculpa. Temos que cancelar o oportunismo e a bajulação para obter vantagens. Temos que cancelar a covardia de não dar chance ao contraponto. Temos que cancelar a xenofobia, o preconceito com o sotaque e com a maneira de cada cultura se expressar.

Temos que cancelar as brincadeiras sexuais em que a mulher é vista como um objeto erótico. Temos que cancelar o racismo do desbotamento, a argumentação de que alguém não é tão negro ou que é um negro com alma branca. Temos que cancelar as passadas de pano, como se a boca não fosse um gatilho disparando. Falar é agir.

Porque as palavras também matam. Acompanhamos um reality onde a feminista milita errado. A lésbica “deslegitimiza” um beijo gay. O humorista que faz o outro chorar. O rapper que faz letras em defesa dos oprimidos, mas na vida real é um ditador cruel.

Nós oferecemos aquilo que temos. Acredito que, quando estamos vazios é natural que nos concentremos mais no outro do que em nós mesmos. O resultado disso, na maioria das vezes, é um movimento barulhento que tenta desviar a atenção daquilo que é a raiz do problema. Xingar, maldizer ou ofender acaba sendo uma maneira destrutiva de dizer ao mundo que não estamos bem equilibrados. Todo excesso esconde uma falta.


Beth Passos é jornalista 

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