ARTIGO – Patrimônio superficial 

“Uma curtida na foto”. “Uma conversa no direct”. “Chama no WhatsApp”. “E aí tudo, bem?”. “Gostei de você”. “Quando vamos nos ver?”. “Que tal no próximo final de semana?”. “Ótimo, você paga a bebida… hahaha”.

São algumas das formas de comunicação superficial da geração de classe média que estudou em bons colégios, fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Nós oferecemos aquilo que temos. Quando estamos ou somos vazios é natural que nos concentremos mais no outro do que em nós mesmos.

O resultado disso, na maioria das vezes, é um movimento barulhento que tenta desviar a atenção daquilo que é a raiz do problema. Talvez seja essa a razão maior de tantos jovens se tornarem usuários de drogas e dos assustadores suicídios, cada vez mais frequentes entre eles, porque não possuem estrutura psicológica para suportar a realidade. Xingar, maldizer ou ofender sempre foi a maneira destrutiva de dizer ao mundo que não estamos bem equilibrados, pois todo excesso esconde uma falta.


Beth Passos é jornalista 

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