ARTIGO – Adelson ‘Barbeiro’

Com o implacável advento da Covid-19, que varre os quatro cantos do mundo destruindo inexoravelmente a raça humana, a longevidade de mulheres e homens da “terceira idade”, tão decantada pela nova ciência e tecnologia, com seus métodos de vida saudável e rejuvenescedor, foi para o “beleleu”.

As estatísticas estão aí anunciando em tom maior que, no Brasil, dos quase 290.000 mortos por essa “praga”, pelo menos 150.000 são de pessoas consideradas legalmente idosas, isto é, gente com a idade a partir dos 60 anos. Outra faixa etária de mortos insere pessoas com idade entre 40 a 59 anos. Os jovens só agora estão sentindo os efeitos desse vírus letal. Infelizmente.

O vírus e suas variantes se constituem no principal algoz dos idosos, principalmente destes. Uma preocupação que vai mui além dos antigos desafios, no que diz respeito às questões existenciais provenientes das desigualdades sociais, que alienam principalmente o idoso de origem humilde, e para as quais não há nenhum vislumbre de reparação. Agora, todos nós idosos, independente de status econômico e social, estamos inseridos neste quadro nefasto, que joga por terra aquela expectativa de vida longa e a esperança de “morrer de velhice” ou de “morte morrida”, no aconchego do lar, nos braços da família.

Reputo aos fados da vida ou aos bafejos da providência Divina, ainda não ter sido alcançado por este vírus maldito. Já tomei, inclusive, a primeira dose da vacina Coronavac. Todavia, tenho testemunhado o passamento de pessoas conhecidas e não poucos amigos, que se foram sem que tivessem ao menos o privilégio dum sepultamento digno e de um último adeus.

No dia 18/03/2021, tomei conhecimento do falecimento do Adelson, da “Barbearia do Adelson”, localizada num espaço do Mercado do bairro 15. Por uma década, desde que fixei morada no II Distrito, de 15 em 15 dias, ele fazia o pé do meu cabelo.

Sem a notoriedade própria de pessoas famosas, Adelson, barbeiro, distinguia-se pela sua visão social e humanista. Entendia como poucos da política partidária acreana e, dava suas pinceladas em política nacional e internacional. Um autodidata. Um amigo que se foi, deixando nas minhas lembranças bons momentos de uma boa conversa, que embora breve, se repetia a cada visita minha à sua barbearia.

Saiba meu caro Adelson, que continuamos, nós os idosos e todo ser pensante, sem solução para debelar este inimigo destruidor. Mas, há uma esperança, que pode renovar as nossas forças a continuar sonhando, da mesma forma que sonhávamos antes da “pandemia”. Esperança, de que com a vacinação possamos vislumbrar dias melhores, e então, seguir o arquétipo de homens e mulheres que conseguiram na velhice suas melhores façanhas e ousaram desafiar as agruras existenciais do seu tempo.

Nesse caso, que venha a vacinação, como um sopro de esperança!

“Adelson ‘BARBEIRO’ distinguia-se pela sua visão social e humanista. Entendia como poucos, da política partidária acreana”

 

Francisco Assis dos Santos é humanista

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